Há dias
em que o mundo parece avançar sem grande alarido, como se as mudanças viessem
de mansinho, sem pedir licença.
Talvez
seja essa a forma mais perigosa de transformação, porque o que chega devagar
instala‑se sem resistência, e quando damos por isso já faz parte da paisagem,
como aquelas ervas que crescem entre as pedras e ninguém plantou, e ali estão,
firmes, a lembrar que a natureza não precisa de autorização para existir.
Habituamo-nos
às pequenas alterações do quotidiano, desde a máquina que decide por nós o
caminho mais rápido até ao algoritmo e escolhe o que devemos ver, ouvir ou até
desejar, não deixando de ser curioso que chamemos progresso a esta delegação
silenciosa da vontade, como se a liberdade fosse coisa dispensável e a
comodidade, essa sim, o verdadeiro bem supremo.
O
problema não está na tecnologia em si, mas na facilidade com que aceitamos que
ela pense por nós, e talvez por isso valha a pena vigiar o que se instala sem
ruído, porque são essas mudanças discretas que mais fundo alteram o modo como
vivemos.
Quando percebermos
o que aconteceu já não é possível regressar ao ponto de partida, se é que
alguma vez houve um.

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