Roger
Thornhill é um homem de publicidade nova-iorquino, cínico, encantador, sem
heroísmo aparente nem vocação para a aventura — e é precisamente por isso que Intriga
Internacional funciona tão bem e que nos identificamos com ele de um modo
que nenhum super-herói consegue provocar.
Cary
Grant trazia ao papel um garbo que Hitchcock admirava com a candura de quem
sabe não o possuir, e que nós, mortais sem fraque perfeito nem mandíbula de
escultura, contemplamos com a mistura justa de inveja e afeto. Mas o garbo é
superfície — o que torna Thornhill universal é outra coisa: é ser um fulano
vulgar a quem acontecem dificuldades extraordinárias, das quais se vai livrando
ora com esperteza, ora com uma sorte que parece gratuita mas que, como toda a
sorte verdadeira, dá muito trabalho a conseguir.
Hitchcock
sabia que o medo é mais convincente num homem comum do que num herói. Este tem
recursos que nós não temos. Thornhill só conta com o engenho do momento, a
improvisação forçada pelas circunstâncias, e a teimosia de quem recusa ser
engolido por forças que não compreende. O campo de milho, o avião, o Monte
Rushmore — tudo isso acontece a um homem que até ali só precisava de apanhar um
táxi.
Identificarmo-nos
com Thornhill é fazê-lo com a melhor versão possível de nós próprios: não a que
é corajosa por natureza, mas a que descobre a coragem como única alternativa.

Sem comentários:
Enviar um comentário