domingo, junho 07, 2026

Eu Sou Roger Thornhill

 


Roger Thornhill é um homem de publicidade nova-iorquino, cínico, encantador, sem heroísmo aparente nem vocação para a aventura — e é precisamente por isso que Intriga Internacional funciona tão bem e que nos identificamos com ele de um modo que nenhum super-herói consegue provocar.

Cary Grant trazia ao papel um garbo que Hitchcock admirava com a candura de quem sabe não o possuir, e que nós, mortais sem fraque perfeito nem mandíbula de escultura, contemplamos com a mistura justa de inveja e afeto. Mas o garbo é superfície — o que torna Thornhill universal é outra coisa: é ser um fulano vulgar a quem acontecem dificuldades extraordinárias, das quais se vai livrando ora com esperteza, ora com uma sorte que parece gratuita mas que, como toda a sorte verdadeira, dá muito trabalho a conseguir.

Hitchcock sabia que o medo é mais convincente num homem comum do que num herói. Este tem recursos que nós não temos. Thornhill só conta com o engenho do momento, a improvisação forçada pelas circunstâncias, e a teimosia de quem recusa ser engolido por forças que não compreende. O campo de milho, o avião, o Monte Rushmore — tudo isso acontece a um homem que até ali só precisava de apanhar um táxi.

Identificarmo-nos com Thornhill é fazê-lo com a melhor versão possível de nós próprios: não a que é corajosa por natureza, mas a que descobre a coragem como única alternativa.

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