segunda-feira, junho 01, 2026

Marilyn, cem anos

 



Hoje, no primeiro dia de junho, Marilyn Monroe faria cem anos, e há qualquer coisa de melancólico em constatar que o mundo continua a saber-lhe mais do corpo do que da cabeça, o que é, em si mesmo, o resumo mais exato da tragédia que foi a sua vida.

Já não faz sentido discutir o símbolo sexual — essa construção que Hollywood fabricou com a cumplicidade de uma América que precisava de um objeto de desejo simples e sem complicações. À distância de décadas sobre a sua morte, importa olhar para a pessoa que estava por detrás do símbolo e reconhecer nela uma inteligência que o sistema fez tudo para sufocar.

Norma Jeane Mortenson era mais esperta do que qualquer das loiras que interpretou, incluindo as dos filmes de qualidade inquestionável — e Some like it hot é um desses, capaz de me fazer rir sempre que o revejo — mas a esperteza, numa mulher do seu tempo e da sua condição, era uma qualidade perigosa que convinha disfarçar.

A infância e a adolescência tinham-na já preparado para a queda: a mãe internada, os orfanatos, os abusos, a precaridade que se instalou tão cedo e donde nunca saiu completamente. Sobre estas fundações frágeis construiu-se o edifício mais improvável — a mulher mais fotografada do século — e é talvez por isso que o edifício ruiu, nunca tendo sido sólidas as fundações e ninguém tratando de as consolidar, antes pelo contrário.

O que resta é a compaixão — não a piedade condescendente- , mas o reconhecimento de que Marilyn Monroe foi vítima de uma tragédia americana que o cinema ajudou a fabricar e não soube impedir.