Renato
Barroso é juiz e cinéfilo e diz-se ateu. É dele um livro sobre a culpa na obra
de Alfred Hitchcock, não deixando de sublinhar o paradoxo de um não-crente debruçar-se
sobre um tema tão profundamente enraizado na tradição judaico-cristã. O
paradoxo é, porém, apenas aparente: a culpa sobrevive à morte de Deus,
instalando-se no inconsciente com a mesma tenacidade com que antes habitava a
confissão, e Hitchcock sabia-o melhor do que ninguém.
Sabia-o
porque a tinha experimentado na carne. Pelos oito ou dez anos, o pai enviou-o à
esquadra da terra com um papel fechado. O chefe de polícia leu-o, encerrou o
miúdo numa cela por alguns minutos e explicou-lhe ser aquele o destino dos
meninos malcomportados.
Hitchcock
nunca se livrou disso — não da cela, mas da lógica que a cela encarnava: a de
que a autoridade pune e o castigo pode cair sobre o inocente sem aviso e sem
recurso. Os polícias nas histórias não saem bem tratados. As instituições são
opacas e ameaçadoras. E a culpa, mesmo quando infundada, adere à pele de quem a
sofre como se fosse merecida.
Daí a
característica mais funda dos heróis hitchcockianos: pessoas vulgares metidas
em situações excecionais, homens e mulheres comuns a quem a vida de repente
exige o que não pediram e para que não estão preparados.
A culpa
não precisa de crime — basta a suspeita, o olhar do outro, e ter estado no
lugar errado na hora errada. O Falso Culpado não é apenas um título: é a
condição humana segundo Hitchcock, e a infância na cela é o seu ponto de
origem.

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