sexta-feira, junho 05, 2026

O Menino na Cela

 


Renato Barroso é juiz e cinéfilo e diz-se ateu. É dele um livro sobre a culpa na obra de Alfred Hitchcock, não deixando de sublinhar o paradoxo de um não-crente debruçar-se sobre um tema tão profundamente enraizado na tradição judaico-cristã. O paradoxo é, porém, apenas aparente: a culpa sobrevive à morte de Deus, instalando-se no inconsciente com a mesma tenacidade com que antes habitava a confissão, e Hitchcock sabia-o melhor do que ninguém.

Sabia-o porque a tinha experimentado na carne. Pelos oito ou dez anos, o pai enviou-o à esquadra da terra com um papel fechado. O chefe de polícia leu-o, encerrou o miúdo numa cela por alguns minutos e explicou-lhe ser aquele o destino dos meninos malcomportados.

Hitchcock nunca se livrou disso — não da cela, mas da lógica que a cela encarnava: a de que a autoridade pune e o castigo pode cair sobre o inocente sem aviso e sem recurso. Os polícias nas histórias não saem bem tratados. As instituições são opacas e ameaçadoras. E a culpa, mesmo quando infundada, adere à pele de quem a sofre como se fosse merecida.

Daí a característica mais funda dos heróis hitchcockianos: pessoas vulgares metidas em situações excecionais, homens e mulheres comuns a quem a vida de repente exige o que não pediram e para que não estão preparados.

A culpa não precisa de crime — basta a suspeita, o olhar do outro, e ter estado no lugar errado na hora errada. O Falso Culpado não é apenas um título: é a condição humana segundo Hitchcock, e a infância na cela é o seu ponto de origem.

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