sábado, junho 13, 2026

A Pedagogia do Preconceito Invertido

 


Numa entrevista a Luís Osório, Joana Barrios contava o seu imperativo íntimo: não alimentar preconceitos. E, se algum lhe surge ao caminho — porque surge, a todos — tentar perceber de onde vem. Qual a raiz dessa reserva. Que medo, que automatismo, que sombra antiga se esconde por trás de algo que, racionalmente, não faz sentido ter.

É um gesto simples. Mas é também um gesto raro. E, sobretudo, um gesto educativo. Um exercício que valeria a pena ensinar às crianças desde cedo, como quem lhes dá uma bússola moral para a vida inteira. Aprender a desconfiar do próprio preconceito. Aprender a interrogá-lo. Aprender a desmontá-lo.

Mas depois olhamos para os pais. E percebemos que o problema começa aí. Pense-se nos de Famalicão, que armaram uma guerra ao governo de António Costa por não quererem que os filhos frequentassem aulas de Educação Cívica. A disciplina não lhes feria a liberdade — feria-lhes a ignorância. E isso, para alguns, é intolerável.

Como evitar às crianças a malignidade congénita que muitos adultos nunca conseguiram largar? Como impedir que a escola seja sabotada por quem teme que os filhos aprendam a pensar, a questionar, a reconhecer o outro como igual? A resposta é dura: não há vacina infalível. Mas há resistência. Há professores que insistem. Há jovens que escapam. Há ideias que sobrevivem apesar de tudo.

Vale a pena pensar a educação como combate ao preconceito. Não como doutrina, mas como prática quotidiana. E lembrar que, às vezes, a maior coragem é esta: admitir que o preconceito está em nós — e que é aí que tem de ser desmontado.

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