O cinema
com tese é um cinema em perigo permanente. O perigo chama-se maniqueísmo, e
instala-se quando o realizador decide que a demonstração importa mais do que a
vida das personagens — altura em que o filme deixa de ser cinema para ser
panfleto, o que não é necessariamente desonesto mas é sempre artisticamente
limitante.
Acreditamos
em Ti quer
defender uma causa justa: a falta de proteção de uma mulher e dos filhos quando
confiam no sistema judiciário para se libertarem de um marido e pai violento,
acabando por ver a sua razão preterida por uma instituição que deveria
servi-los. O tema existe, a injustiça é real, e merecia um filme à altura.
O
problema é que o filme esgota a tese antes de esgotar a duração — e a duração é
já curta, pouco além da média-metragem. Quando uma obra termina sem que se
sinta ter ficado algo por dizer, é bom sinal. Quando termina porque nada mais
havia a dizer, é outra coisa. As personagens nunca ganham espessura suficiente
para existirem além da função que a tese lhes atribui — a vítima é vítima, o
agressor é agressor, o sistema é kafkiano — e o espectador assiste a uma
demonstração em vez de viver uma experiência.
A causa
merecia melhor. Mas um bom filme sobre injustiça não se faz apenas com
indignação — faz-se com personagens que nos importam antes de nos convencer.

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