terça-feira, junho 23, 2026

Acreditamos em Ti, de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys

 


O cinema com tese é um cinema em perigo permanente. O perigo chama-se maniqueísmo, e instala-se quando o realizador decide que a demonstração importa mais do que a vida das personagens — altura em que o filme deixa de ser cinema para ser panfleto, o que não é necessariamente desonesto mas é sempre artisticamente limitante.

Acreditamos em Ti quer defender uma causa justa: a falta de proteção de uma mulher e dos filhos quando confiam no sistema judiciário para se libertarem de um marido e pai violento, acabando por ver a sua razão preterida por uma instituição que deveria servi-los. O tema existe, a injustiça é real, e merecia um filme à altura.

O problema é que o filme esgota a tese antes de esgotar a duração — e a duração é já curta, pouco além da média-metragem. Quando uma obra termina sem que se sinta ter ficado algo por dizer, é bom sinal. Quando termina porque nada mais havia a dizer, é outra coisa. As personagens nunca ganham espessura suficiente para existirem além da função que a tese lhes atribui — a vítima é vítima, o agressor é agressor, o sistema é kafkiano — e o espectador assiste a uma demonstração em vez de viver uma experiência.

A causa merecia melhor. Mas um bom filme sobre injustiça não se faz apenas com indignação — faz-se com personagens que nos importam antes de nos convencer.

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