sexta-feira, junho 12, 2026

Henry Miller e o Mundo em Chamas

 


As botas dos exércitos hitlerianos avançavam pela Europa. O mapa mudava de cor a cada semana, como se o continente estivesse a ser redesenhado à força. E o que fazia Henry Miller, que passara a última década radicado deste lado do Atlântico? Ia para a Grécia.

Não era fuga. Era fascínio. A Grécia oferecia-lhe um mundo que parecia suspenso da violência que se acumulava no resto da Europa. E foi ali, entre ruínas antigas e conversas demoradas, que encontrou o impulso para escrever O Colosso de Maroussi.

No seu habitual cinismo, Miller dizia querer ignorar a guerra. Recusava notícias, comentários, a ideia de que o destino coletivo pudesse interferir no seu percurso pessoal. Era uma forma de resistência, mas também de ilusão. Acreditava que podia manter-se à margem, como se a História fosse um ruído distante.

Mas a realidade acabou por alcançá-lo. Em 1940, já não havia como fingir que o mundo ardia sem o atingir. A guerra aproximava-se de todos, mesmo daqueles que tentavam viver como se nada estivesse a acontecer. Miller percebeu que também ele era afetado — não apenas como escritor, mas como homem.

Partiu então de regresso aos Estados Unidos. Instalou-se definitivamente na Califórnia, onde encontrou o poiso final, longe da Europa que o tinha formado e agora se desmoronava. A viagem não foi apenas geográfica mas uma espécie de renúncia: a aceitação de que ninguém escapa ao tempo em que vive.

Vale a pena reler Miller com esta consciência histórica. Não para o julgar, mas para perceber como até os espíritos mais livres acabam por ser apanhados pela maré da História. E como, às vezes, o gesto mais humano é reconhecer que não podemos ignorar o mundo que nos rodeia.

Sem comentários: