As botas
dos exércitos hitlerianos avançavam pela Europa. O mapa mudava de cor a cada
semana, como se o continente estivesse a ser redesenhado à força. E o que fazia
Henry Miller, que passara a última década radicado deste lado do Atlântico? Ia
para a Grécia.
Não era
fuga. Era fascínio. A Grécia oferecia-lhe um mundo que parecia suspenso da
violência que se acumulava no resto da Europa. E foi ali, entre ruínas antigas
e conversas demoradas, que encontrou o impulso para escrever O Colosso de
Maroussi.
No seu
habitual cinismo, Miller dizia querer ignorar a guerra. Recusava notícias, comentários,
a ideia de que o destino coletivo pudesse interferir no seu percurso pessoal.
Era uma forma de resistência, mas também de ilusão. Acreditava que podia
manter-se à margem, como se a História fosse um ruído distante.
Mas a
realidade acabou por alcançá-lo. Em 1940, já não havia como fingir que o mundo
ardia sem o atingir. A guerra aproximava-se de todos, mesmo daqueles que
tentavam viver como se nada estivesse a acontecer. Miller percebeu que também
ele era afetado — não apenas como escritor, mas como homem.
Partiu
então de regresso aos Estados Unidos. Instalou-se definitivamente na
Califórnia, onde encontrou o poiso final, longe da Europa que o tinha formado e
agora se desmoronava. A viagem não foi apenas geográfica mas uma espécie de
renúncia: a aceitação de que ninguém escapa ao tempo em que vive.
Vale a
pena reler Miller com esta consciência histórica. Não para o julgar, mas para
perceber como até os espíritos mais livres acabam por ser apanhados pela maré
da História. E como, às vezes, o gesto mais humano é reconhecer que não podemos
ignorar o mundo que nos rodeia.

Sem comentários:
Enviar um comentário