terça-feira, junho 09, 2026

A Sorte de Esquecer

 


Numa conversa com Luís Caetano, Carmen Maria Machado falava do impressionante exemplo daquelas pessoas que nada esquecem. Gente que conserva tudo na memória, como se cada detalhe da vida ficasse gravado com nitidez absoluta, sem falhas, nem sombras, muito menos o esquecimento.

À primeira vista, a ideia parece tentadora. Quem não desejaria recordar tudo? Quem não gostaria de ter acesso imediato a cada momento vivido, como se a vida fosse um arquivo perfeito, sempre disponível?

Mas Carmen, que conhece bem o peso da memória — sobretudo a memória do corpo e do trauma — depressa chegou à conclusão contrária. Percebeu que essa capacidade, longe de ser privilégio, roça a maldição. Viver sem esquecer é viver sem descanso. É carregar o passado inteiro às costas, sem a trégua que o tempo costuma oferecer.

No dia‑a‑dia, o passado surge caótico. Mistura datas, confunde episódios, troca lugares, altera sequências. E, no entanto, é dessa desordem que nasce a nossa versão mais íntima da memória. Não é cronológica, nem rigorosa, nem “realista” no sentido documental. Mas é pessoal. E talvez seja isso que importa.

A memória perfeita seria uma prisão. A imperfeita, essa que nos trai e nos protege ao mesmo tempo, permite‑nos continuar. Permite‑nos escolher o que fica e o que se dissolve, mesmo quando não sabemos que estamos a escolher.

Por isso vale a pena pensar no valor do esquecimento. Não como falha, mas como forma de sobrevivência. Afinal, lembrar tudo seria insuportável. E esquecer um pouco é, muitas vezes, a única maneira de seguir em frente.

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