sábado, junho 13, 2026

A Grande Catarse Planetária

 


O que leva tanta gente a mitigar as preocupações do dia‑a‑dia com a febre futebolística que já começou a instalar‑se, a pretexto do Campeonato do Mundo? O que justifica agarrar‑se à experiência televisiva de seguir jogos intermináveis, com duas dúzias de homens a correr num relvado qualquer, como se ali estivesse em causa o destino da humanidade?

A alegria pela vitória é desproporcionada. A frustração pela derrota, igualmente. E, no entanto, repete‑se a cada quatro anos, como ritual. Como se o resultado final alterasse algo de substantivo na vida de quem assiste. Melhora? Agrava? Nada disso. Mas mexe com qualquer coisa que não se mede em utilidade.

Freud teria uma explicação pronta. Diria que tudo isto é catarse. Uma libertação coletiva dos recalcamentos individuais, somados e amplificados até se tornarem festa ou tragédia, conforme o marcador. O estádio — ou o ecrã — funciona como válvula de escape. E o adepto, mesmo o mais pacato, encontra ali um lugar onde pode sentir sem pudor, gritar sem culpa, exagerar sem consequências.

Mas se viessem alienígenas de fora do Sistema Solar, observando estes terráqueos com a frieza de quem não partilha os seus mitos, achariam tudo isto profundamente estranho. Veriam milhões de pessoas a suspender a vida para acompanhar um jogo que não altera rigorosamente nada na sua existência concreta. Veriam a alegria e a dor investidas num acontecimento que não lhes devolve salário, saúde, justiça ou futuro. E concluiriam que esta espécie tem uma notável capacidade de se alienar.

Talvez seja isso que o futebol oferece: uma pausa. Um intervalo emocional. Um lugar onde a vida parece simples, mesmo quando não é. E onde, por noventa minutos, o mundo se reduz a uma bola que entra ou não entra.

Vale a pena pensar neste fenómeno com alguma distância. Não para o condenar, mas para perceber o que ele revela: que os humanos precisam de histórias para suportar o real. E o futebol, goste‑se ou não, é uma das mais eficazes.

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