O que
leva tanta gente a mitigar as preocupações do dia‑a‑dia com a febre
futebolística que já começou a instalar‑se, a pretexto do Campeonato do Mundo?
O que justifica agarrar‑se à experiência televisiva de seguir jogos
intermináveis, com duas dúzias de homens a correr num relvado qualquer, como se
ali estivesse em causa o destino da humanidade?
A alegria
pela vitória é desproporcionada. A frustração pela derrota, igualmente. E, no
entanto, repete‑se a cada quatro anos, como ritual. Como se o resultado final
alterasse algo de substantivo na vida de quem assiste. Melhora? Agrava? Nada
disso. Mas mexe com qualquer coisa que não se mede em utilidade.
Freud
teria uma explicação pronta. Diria que tudo isto é catarse. Uma libertação
coletiva dos recalcamentos individuais, somados e amplificados até se tornarem
festa ou tragédia, conforme o marcador. O estádio — ou o ecrã — funciona como
válvula de escape. E o adepto, mesmo o mais pacato, encontra ali um lugar onde
pode sentir sem pudor, gritar sem culpa, exagerar sem consequências.
Mas se
viessem alienígenas de fora do Sistema Solar, observando estes terráqueos com a
frieza de quem não partilha os seus mitos, achariam tudo isto profundamente
estranho. Veriam milhões de pessoas a suspender a vida para acompanhar um jogo
que não altera rigorosamente nada na sua existência concreta. Veriam a alegria
e a dor investidas num acontecimento que não lhes devolve salário, saúde,
justiça ou futuro. E concluiriam que esta espécie tem uma notável capacidade de
se alienar.
Talvez
seja isso que o futebol oferece: uma pausa. Um intervalo emocional. Um lugar
onde a vida parece simples, mesmo quando não é. E onde, por noventa minutos, o
mundo se reduz a uma bola que entra ou não entra.
Vale a
pena pensar neste fenómeno com alguma distância. Não para o condenar, mas para
perceber o que ele revela: que os humanos precisam de histórias para suportar o
real. E o futebol, goste‑se ou não, é uma das mais eficazes.

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