Georgia
O’Keeffe passou a vida a negar que as suas flores fossem metáforas eróticas.
Dizia que eram apenas flores, ampliadas até ao limite, vistas tão de perto que
deixavam de ser botânica e chegavam à forma pura. Mas o olhar do público — e o
da crítica — viu sempre outra coisa. Viu curvas que lembravam pele. Viu
aberturas que sugeriam intimidade. Viu um corpo onde ela dizia haver apenas
pétalas.
O que
importa, porém, não é decidir quem tem razão. É perceber o que acontece quando
alguém olha o mundo com tamanha intensidade que o mundo começa a devolver-lhe
outra coisa. O’Keeffe aproximava-se das flores como quem se aproxima de um
segredo. Elas abriam-se, não por provocação, mas por revelação. E, nesse gesto,
mostravam uma energia vital que é também corporal.
Há algo
de profundamente moderno nessa abordagem. O corpo não está representado — está
insinuado pela própria natureza. E a flor, ampliada até ao limite, deixa de ser
flor para tornar-se experiência. Uma vibração. Um pulso. Uma espécie de
respiração silenciosa que atravessa a tela.
O’Keeffe
dizia que pintava o que via. Mas talvez pintasse o que sentia ao ver. E é isso
que torna as suas flores tão perturbadoras: não são metáforas explícitas, mas
encontros. Entre o olhar e a forma. Entre a matéria e o desejo de compreender a
matéria. Entre a natureza e a interioridade de quem a contempla.
Vale a
pena pensar neste erotismo que nasce da atenção. Porque, no fundo, O’Keeffe
mostrou que a intimidade não está no corpo — está no olhar que o mundo nos
devolve quando o vemos de perto.

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