segunda-feira, junho 22, 2026

O Silêncio dos Pardais

 


Nos últimos anos tenho aumentado o prazer no birdwatching, sobretudo nos passeios de carro que me levam para fora dos ambientes urbanos. É um hábito simples, quase meditativo, que devolve ao olhar uma atenção que a cidade tende a corroer. Mas, apesar disso, passou‑me ao lado algo que, em poucos dias, ouvi por duas vezes: a rarefação dos pardais.

Quando era miúdo, eram omnipresentes. Acompanhavam os dias como um ruído de fundo. Faziam parte da paisagem sonora e visual, tão naturais que nem precisávamos de reparar neles. Agora, dizem, estão a desaparecer.

As razões são várias. Primeiro, as mudanças na arquitetura das casas. Os beirais desapareceram, substituídos por linhas limpas, fachadas lisas, ângulos perfeitos. E com eles desapareceram também os abrigos improvisados onde os pardais construíam os seus ninhos. A modernidade não lhes deixou lugar.

Depois, o número muito menor de insetos. As crias precisam deles para crescer depressa, ganhar força, sobreviver. Sem proteína, não há voo possível. E os insetos estão a desaparecer numa escala que só agora começamos a compreender.

E, enfim — e sobretudo — o uso intensivo de pesticidas nas culturas de gramíneas de que os pardais se alimentam. A química que protege as colheitas destrói o que sustenta as aves. É uma equação simples, mas devastadora. E assim se compromete o futuro de uma espécie que parecia eterna.

O desaparecimento dos pardais é mais do que um fenómeno ecológico. É um sinal. Um aviso discreto, quase tímido, de que o mundo que conhecemos está a mudar debaixo dos nossos olhos. E que aquilo que tomávamos por garantido — o chilrear constante, a presença discreta nos telhados, a leveza dos bandos — pode desaparecer sem alarme.

Vale a pena pensar no que significa perder uma espécie comum. Porque, às vezes, o que desaparece primeiro não são os grandes animais, mas os pequenos sinais de vida que davam textura aos nossos dias.

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