Nos
últimos anos tenho aumentado o prazer no birdwatching, sobretudo nos
passeios de carro que me levam para fora dos ambientes urbanos. É um hábito
simples, quase meditativo, que devolve ao olhar uma atenção que a cidade tende
a corroer. Mas, apesar disso, passou‑me ao lado algo que, em poucos dias, ouvi por
duas vezes: a rarefação dos pardais.
Quando
era miúdo, eram omnipresentes. Acompanhavam os dias como um ruído de fundo.
Faziam parte da paisagem sonora e visual, tão naturais que nem precisávamos de
reparar neles. Agora, dizem, estão a desaparecer.
As razões
são várias. Primeiro, as mudanças na arquitetura das casas. Os beirais
desapareceram, substituídos por linhas limpas, fachadas lisas, ângulos
perfeitos. E com eles desapareceram também os abrigos improvisados onde os
pardais construíam os seus ninhos. A modernidade não lhes deixou lugar.
Depois, o
número muito menor de insetos. As crias precisam deles para crescer depressa,
ganhar força, sobreviver. Sem proteína, não há voo possível. E os insetos estão
a desaparecer numa escala que só agora começamos a compreender.
E, enfim
— e sobretudo — o uso intensivo de pesticidas nas culturas de gramíneas de que
os pardais se alimentam. A química que protege as colheitas destrói o que
sustenta as aves. É uma equação simples, mas devastadora. E assim se compromete
o futuro de uma espécie que parecia eterna.
O
desaparecimento dos pardais é mais do que um fenómeno ecológico. É um sinal. Um
aviso discreto, quase tímido, de que o mundo que conhecemos está a mudar
debaixo dos nossos olhos. E que aquilo que tomávamos por garantido — o chilrear
constante, a presença discreta nos telhados, a leveza dos bandos — pode
desaparecer sem alarme.
Vale a
pena pensar no que significa perder uma espécie comum. Porque, às vezes, o que
desaparece primeiro não são os grandes animais, mas os pequenos sinais de vida
que davam textura aos nossos dias.

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