Hitchcock
percebeu tarde demais que os cameos se tinham voltado contra si. O que
começara como brincadeira privada — o realizador a aparecer fugazmente no filme,
passando na rua, sentado num autocarro, atravessando uma porta —
transformara-se num desafio público que os espectadores levavam demasiado a
sério, distraindo-se do essencial da história à espera do momento em que o
mestre aparecia.
A solução
foi pragmática: a partir de certa altura, Hitchcock passou a aparecer no início
dos filmes, arrumando a questão antes de a narrativa arrancar.
Mas o
fenómeno diz qualquer coisa sobre nós que vai além de Hitchcock. Há uma
tendência, não apenas cinematográfica, para perdermo-nos no acessório enquanto
o essencial decorre sem testemunhas. Sentamos na sala escura a varrer o ecrã em
busca da silhueta inconfundível e entretanto o crime acontece, o amor nasce e
morre, o inocente é condenado — e nós estávamos distraídos, à caça de uma
aparição que durava três segundos.
O cinema
de Hitchcock é, entre outras coisas, um estudo sobre a atenção e seus desvios.
As personagens morrem porque olharam para o lado. Os culpados escapam porque
ninguém estava verdadeiramente a ver. E nós, espectadores, reproduzimos no
escuro da sala o mesmo mecanismo que condena os heróis no ecrã — deixamo-nos
seduzir pelo acessório, e quando damos por isso o filme já passou.

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