Impressiona
sempre que se visita Veneza: aquela cidade tão leve na aparência, tão frágil na
sua geometria de canais, assenta afinal sobre estacas de carvalho e larício
que, ao longo dos séculos, se tornaram mais densas do que qualquer metal, como
se a própria matéria tivesse decidido contrariar o destino da ruína que todos
lhe previam. A explicação é simples, mas não deixa de ser assombro: enterradas
na lama, privadas de oxigénio, as madeiras mineralizaram‑se, transformando‑se
em colunas pétreas, quase fósseis, capazes de sustentar o peso da cidade sem
ceder ao tempo.
Penso
nisto e noto como a resistência raramente coincide com a aparência. Veneza
parece frágil, mas é dura; parece prestes a afundar, mas insiste em permanecer;
parece obra de delicadeza, mas repousa sobre uma engenharia que só a paciência
dos séculos permite compreender. Há algo de simbólico nesta transformação lenta
da madeira em mineral: uma espécie de pacto entre o humano e o ambiente, pacto
que não se renova por decreto, mas por continuidade, por atenção, por essa
forma de cuidado que não se vê, mas sustenta.
E talvez
seja isso que mais fascina: a ideia de que a cidade vive graças ao que está
escondido, não se mostra, não se celebra. As estacas não têm monumento, placa,
nem narrativa heroica. São apenas matéria que resiste, silenciosa, invisível,
indispensável. E essa invisibilidade diz muito sobre o que mantém o mundo de pé
—nunca o que brilha, sempre o que permanece enterrado.
Veneza,
mais do que cidade, é lição: aquilo que parece vulnerável pode ser o que mais
resiste, e aquilo que julgamos sólido pode ser o que primeiro cede.
