Há livros
que parecem escritos à beira de um precipício. O Colosso de Maroussi é
um deles. Henry Miller atravessava a Grécia como um sonho tardio, sabendo que a
realidade — a verdadeira, a histórica — aproximava-se com o peso de um desastre
inevitável.
Ele
próprio o reconhece numa das passagens do livro (p. 23): «Saindo do mar, como se o
próprio Homero tivesse tratado de me preparar o cenário, as ilhas pairavam,
flutuavam como rolhas, solitárias, desertas, misteriosas, na luz que se
retirava. Nada mais podia pedir; nada mais desejava. (…) Sentia a guerra
aproximar‑se — mais perto a cada dia.» A paz ainda durava, mas já só durava
por instinto. Era uma luz que se retirava devagar, como o sol que abandona as
ilhas flutuantes que Miller descreve. E ele sabia — talvez pela primeira vez —
que a felicidade também tem prazo.
A Grécia
oferecia-lhe essa suspensão. Um intervalo. Um tempo fora do tempo. E Miller,
que tantas vezes se refugiara no cinismo para não olhar de frente o mundo,
percebeu ali que o mundo não podia ser ignorado para sempre. A guerra
aproximava-se, e a sua recusa em saber notícias já não o protegia.
É nesse
contexto que surge Eleusis, descrita com uma clareza quase cruel (p. 65): «Exteriormente, Eleusis pode
parecer um velho destroço, desmoronando-se com o passado. Na verdade, Eleusis
permanece intacta; os velhos destroços, a dispersão, o esfarelamento, o pó —
somos nós.» A ruína não estava no templo. Estava nos homens. Eleusis
permanecia eterna, enquanto o mundo moderno agonizava — e Miller, que sempre
desconfiou das ilusões civilizacionais, reconhecia ali uma verdade que o
ultrapassava.
E depois
há Festo, onde ele escreve uma das frases mais íntimas do livro (pp. 209–212): «Foi uma das raras ocasiões
da minha vida em que tive plena consciência de estar à beira de uma grande
experiência. (…) No fundo do coração, o homem está unido ao universo. Festo
contém todos os elementos do coração; Festo é a mulher inteira.» É raro
vê-lo tão desarmado. Tão consciente de que a viagem não era apenas geográfica,
mas interior. Como se a Grécia lhe tivesse devolvido uma ligação primordial ao
mundo, ao corpo, ao feminino, àquilo que antecede a História e sobrevive à violência.
Mas nada
disso o salvou da evidência. Em 1940, já não havia como permanecer na ilha de
luz enquanto a Europa ardia. Miller regressou aos Estados Unidos, instalou-se
na Califórnia e deixou para trás a última claridade antes da guerra. O livro
ficou como testemunho desse instante suspenso — o momento em que um homem
percebe que a beleza não basta para deter a catástrofe.
O
Colosso de Maroussi não é apenas um livro de viagens. É o retrato de um mundo que ainda
respirava, mesmo sabendo que estava prestes a deixar de o fazer.

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