sexta-feira, junho 12, 2026

Voltando ao Colosso de Maroussi

 


Há livros que parecem escritos à beira de um precipício. O Colosso de Maroussi é um deles. Henry Miller atravessava a Grécia como um sonho tardio, sabendo que a realidade — a verdadeira, a histórica — aproximava-se com o peso de um desastre inevitável.

Ele próprio o reconhece numa das passagens do livro (p.23): «Saindo do mar, como se o próprio Homero tivesse tratado de me preparar o cenário, as ilhas pairavam, flutuavam como rolhas, solitárias, desertas, misteriosas, na luz que se retirava. Nada mais podia pedir; nada mais desejava. (…) Sentia a guerra aproximar‑se — mais perto a cada dia.» A paz ainda durava, mas já só durava por instinto. Era uma luz que se retirava devagar, como o sol que abandona as ilhas flutuantes que Miller descreve. E ele sabia — talvez pela primeira vez — que a felicidade também tem prazo.

A Grécia oferecia-lhe essa suspensão. Um intervalo. Um tempo fora do tempo. E Miller, que tantas vezes se refugiara no cinismo para não olhar de frente o mundo, percebeu ali que o mundo não podia ser ignorado para sempre. A guerra aproximava-se, e a sua recusa em saber notícias já não o protegia.

É nesse contexto que surge Eleusis, descrita com uma clareza quase cruel (p.65): «Exteriormente, Eleusis pode parecer um velho destroço, desmoronando-se com o passado. Na verdade, Eleusis permanece intacta; os velhos destroços, a dispersão, o esfarelamento, o pó — somos nós.» A ruína não estava no templo. Estava nos homens. Eleusis permanecia eterna, enquanto o mundo moderno agonizava — e Miller, que sempre desconfiou das ilusões civilizacionais, reconhecia ali uma verdade que o ultrapassava.

E depois há Festo, onde ele escreve uma das frases mais íntimas do livro (pp.209212): «Foi uma das raras ocasiões da minha vida em que tive plena consciência de estar à beira de uma grande experiência. (…) No fundo do coração, o homem está unido ao universo. Festo contém todos os elementos do coração; Festo é a mulher inteira.» É raro vê-lo tão desarmado. Tão consciente de que a viagem não era apenas geográfica, mas interior. Como se a Grécia lhe tivesse devolvido uma ligação primordial ao mundo, ao corpo, ao feminino, àquilo que antecede a História e sobrevive à violência.

Mas nada disso o salvou da evidência. Em 1940, já não havia como permanecer na ilha de luz enquanto a Europa ardia. Miller regressou aos Estados Unidos, instalou-se na Califórnia e deixou para trás a última claridade antes da guerra. O livro ficou como testemunho desse instante suspenso — o momento em que um homem percebe que a beleza não basta para deter a catástrofe.

O Colosso de Maroussi não é apenas um livro de viagens. É o retrato de um mundo que ainda respirava, mesmo sabendo que estava prestes a deixar de o fazer.

Sem comentários: