Patricia
Highsmith e Alfred Hitchcock partilhavam o mesmo território moral: um mundo
onde o mal não usa máscara, o culpado pode ser mais simpático do que a vítima,
e a sociedade respeitável esconde, sob a superfície polida, uma violência que
só precisa de pretexto para emergir. Que se tenham encontrado uma única vez é
um dos grandes paradoxos da cultura do século XX.
O
Desconhecido do Norte Expresso, em 1951, foi esse encontro, e o resultado foi
irrepreensível — a proposta absurda da troca de crimes, a tensão que cresce
como uma partitura inevitável, e Bruno Anthony, um dos mais perturbadores
vilões do cinema de Hitchcock, saído diretamente da imaginação de uma escritora
que entendia o mal como ninguém. O filme é dos melhores de ambos, o que não é
pouco.
Porque
não se repetiu fica apenas para a especulação. Desentendimentos sobre controlo
criativo, temperamentos que não se conciliaram além daquele projeto — as razões
perdem-se. O que não se perde é a tentação de imaginar o que poderia ter sido:
Highsmith escreveu Tom Ripley com uma cumplicidade pelo protagonista que
Hitchcock compreenderia instintivamente, esse homem vulgar que mata para
ascender e que a sociedade acaba por acolher porque a sociedade prefere não
ver. Um Ripley filtrado pelo crivo de Hitch teria sido, presumivelmente, uma
obra-prima.
Ficou por
fazer. É uma das ausências do cinema que mais custam a aceitar.

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