A
propósito de Cherchez la femme, filme póstumo de António Cunha Telles
que passou quase clandestinamente pelas salas, o crítico José Vieira Mendes
lança uma pergunta que merece ficar a ecoar: haverá ainda espaço, entre nós,
para filmes que não querem ser fáceis mas continuam acessíveis, que recusam
explicar tudo, que preferem deixar‑nos incomodados, confusos, talvez até
ligeiramente perturbados?
A
pergunta, dita assim, parece simples, mas carrega uma ironia funda, porque o
cinema que se quer adulto não tem obrigação de confortar ninguém, e no entanto
vivemos tempos em que a explicação se tornou vício e a ambiguidade quase crime,
como se o espectador fosse criatura frágil que precisa de manual de instruções
para atravessar uma história.
Cunha
Telles, sempre contra a corrente, sabia que a arte respira melhor quando não se
ajoelha perante a clareza obrigatória, e talvez por isso a pergunta do crítico
soe menos a lamento e mais a aviso, lembrando que a inquietação é parte do
olhar e convém defender o direito ao incómodo antes do cinema se transformar em
explicação ilustrada.

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