sexta-feira, junho 26, 2026

Saint Malo, o Lugar Onde Não Voltámos

 


Um documentário sobre Saint‑Malo levou‑me de volta a um dos últimos grandes passeios de carro que fizemos além‑Pirenéus, antes da doença da Elza. Tínhamos ido ao Monte Saint‑Michel numa visita há muito planeada e, antes de descermos para sul, decidimos espreitar Saint‑Malo, onde pernoitaríamos.

Foi uma passagem breve. Não tivemos tempo para passear ao longo das muralhas, nem para perceber como estavam pensadas para resistir tanto a quem atacasse a cidade pelo mar como a quem, de dentro, fizesse da fortaleza o seu alvo. Ficou tudo por ver. Por sentir. Por compreender.

De comum acordo, dissemos que seria apenas uma espreitadela. Voltaríamos com outra disponibilidade. As férias aproximavam‑se do fim e a segunda‑feira obrigava a regressar ao trabalho. Compreendia‑se a pressa: França inteira por atravessar, depois Espanha, depois Portugal. A estrada chamava mais do que a cidade.

O problema foi não termos tido oportunidade de voltar. Quando planeámos concretizar esse retorno, apareceu a pandemia. E, durante ela, a situação que condicionaria a Elza desde então. Saint‑Malo ficou suspensa nesse intervalo entre o desejo e a impossibilidade. Um projeto de melhor conhecimento que nunca partilharemos.

O documentário carrega essa nostalgia. A do que queríamos fazer e as circunstâncias não permitiram. A do que ficou por cumprir. A do que não voltará.

E, no entanto, há uma espécie de ternura nesse reconhecimento. Porque a memória não precisa de completude para ser verdadeira. Basta o instante vivido — e o que ele prometia.

Vale a pena pensar nos lugares que ficaram por cumprir. São eles que, muitas vezes, guardam a parte mais íntima da nossa história.

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