Um
documentário sobre Saint‑Malo levou‑me de volta a um dos últimos grandes
passeios de carro que fizemos além‑Pirenéus, antes da doença da Elza. Tínhamos
ido ao Monte Saint‑Michel numa visita há muito planeada e, antes de descermos
para sul, decidimos espreitar Saint‑Malo, onde pernoitaríamos.
Foi uma
passagem breve. Não tivemos tempo para passear ao longo das muralhas, nem para
perceber como estavam pensadas para resistir tanto a quem atacasse a cidade
pelo mar como a quem, de dentro, fizesse da fortaleza o seu alvo. Ficou tudo
por ver. Por sentir. Por compreender.
De comum
acordo, dissemos que seria apenas uma espreitadela. Voltaríamos com outra
disponibilidade. As férias aproximavam‑se do fim e a segunda‑feira obrigava a
regressar ao trabalho. Compreendia‑se a pressa: França inteira por atravessar,
depois Espanha, depois Portugal. A estrada chamava mais do que a cidade.
O
problema foi não termos tido oportunidade de voltar. Quando planeámos
concretizar esse retorno, apareceu a pandemia. E, durante ela, a situação que
condicionaria a Elza desde então. Saint‑Malo ficou suspensa nesse intervalo
entre o desejo e a impossibilidade. Um projeto de melhor conhecimento que nunca
partilharemos.
O
documentário carrega essa nostalgia. A do que queríamos fazer e as
circunstâncias não permitiram. A do que ficou por cumprir. A do que não
voltará.
E, no
entanto, há uma espécie de ternura nesse reconhecimento. Porque a memória não
precisa de completude para ser verdadeira. Basta o instante vivido — e o que
ele prometia.
Vale a
pena pensar nos lugares que ficaram por cumprir. São eles que, muitas vezes,
guardam a parte mais íntima da nossa história.

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