quarta-feira, julho 01, 2026

A Voz do Dono

 


O 60 Minutes da CNN sempre me pareceu a expressão canina dos interesses das sucessivas administrações norte‑americanas. Um programa que muda de tom conforme muda o poder. E onde apresentadores e equipas de suporte são despedidos com a mesma naturalidade com que se muda de guarda num palácio. A regra é simples: segue‑se a his master’s voice.

Por isso quase sempre duvido das vantagens de continuar a acompanhar esse exercício indecoroso. A propaganda ianque assume‑se com um maniqueísmo tão previsível que já nem surpreende. O mundo dividido entre bons e maus, liberdade e tirania, luz e trevas — sempre com os Estados Unidos no papel de árbitro moral. Uma narrativa que se repete, independentemente da complexidade dos factos.

O problema não é a existência de uma linha editorial. Todas as têm. O problema é a ausência de pudor. A facilidade com que se transforma jornalismo em catecismo. A forma como se embrulha interesse geopolítico em retórica moralista. E como se espera que o espectador aceite tudo isso sem pestanejar.

A verdade é que a informação precisa de desconfiança. Precisa de distância crítica. Precisa de ser confrontada com outras vozes, contextos, leituras. E programas como este, que se apresentam como investigação rigorosa, mas funcionam como extensão narrativa do poder, tornam esse exercício ainda mais necessário.

Vale a pena pensar no que significa consumir informação com lucidez. Não para rejeitar tudo, mas para não aceitar tudo. E para lembrar que, num mundo saturado de certezas fabricadas, a dúvida continua a ser um gesto de liberdade.

Os Pais que se Perdem, as Filhas que Ficam

 


Há ciclos no cinema como os há na natureza — temas que regressam em vaga, sem concerto aparente, como se os realizadores de diferentes países e línguas tivessem acordado na mesma inquietação sem se terem consultado. Nos últimos tempos tenho visto passar pelos olhos, entre longas e curtas, vários filmes em que o tema é a distância entre uma filha e o pai — o pai que deriva, o pai que desaparece, o pai que se torna criança enquanto a filha se torna adulta antes de tempo.

At Home I Feel Like Leaving, do austríaco Simon Maria Kubiena, é mais um desses: uma jovem regressa à aldeia natal no sopé dos Alpes porque o pai, de comportamento cada vez mais infantil e imprevisível, desapareceu nos bosques.

A noite de São João prepara-se, a fogueira tradicional vai ser acesa, e ela debate-se entre o peso da responsabilidade familiar e o desejo de recuperar a leveza de outrora com uma amiga de infância —microcosmo simultaneamente amoroso e sufocante que é a terra de onde se fugiu e a que se é sempre convocado a regressar.

O que estes filmes em ciclo nos propõem, sem o declarar, é uma dupla reflexão: sobre a nossa condição de filhos, que um dia descobrimos não conhecer os pais tão bem quanto julgávamos; e sobre a nossa condição de pais, perguntando-nos que distâncias criámos sem o perceber, que quartos fechámos sem deixar chave.

São perguntas que o cinema faz melhor do que a filosofia, porque encarna-as em rostos e em bosques noturnos e em fogueiras de São João.