domingo, junho 07, 2026

O Mistério de Falla

 


Manuel de Falla é uma figura singular de quem muito aprecio o Amor Brujo, que assume o fascínio pela cultura dos ciganos andaluzes. A música parece nascer da terra, do corpo, de uma espiritualidade que não passa pelos altares mas pelos gestos, danças, medos e encantamentos que sobrevivem à margem da história oficial.

E, no entanto, se Falla era inspirado por esse mundo popular, mantinha uma devoção inquestionada pelo catolicismo. Os amigos podiam brincar com tudo, menos com a Igreja. A fé era território vedado ao humor, como se a crença precisasse de ser protegida da leveza.

Há aqui um paradoxo evidente. Como conciliar uma sensibilidade artística tão aberta ao instinto e ao paganismo subterrâneo da cultura cigana com uma adesão rígida a uma instituição que sempre desconfiou desses impulsos? Talvez por isso a vida de Falla pareça mover‑se entre dois polos inconciliáveis: a música que liberta e a fé que fecha.

A amizade com Federico García Lorca torna esse contraste ainda mais agudo. O assassinato do poeta levou Falla ao exílio argentino, de onde nunca mais regressaria à amada Andaluzia. E é difícil não notar a ironia: o homem que venerava a Igreja viu‑se incapaz de regressar à terra onde ela foi conivente com a morte do amigo.

O ser humano raramente é coerente. E a arte, quando é verdadeira, nasce dessa fratura entre o que sentimos e o que acreditamos, entre o impulso e a doutrina, entre a liberdade e o dogma.

Talvez por isso valha a pena revisitar Falla sem pedir-lhe coerência. É dessa tensão que a sua música retira a força que ainda hoje nos inquieta.

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