Manuel de
Falla é uma figura singular de quem muito aprecio o Amor Brujo, que assume
o fascínio pela cultura dos ciganos andaluzes. A música parece nascer da terra,
do corpo, de uma espiritualidade que não passa pelos altares mas pelos gestos, danças,
medos e encantamentos que sobrevivem à margem da história oficial.
E, no
entanto, se Falla era inspirado por esse mundo popular, mantinha uma devoção
inquestionada pelo catolicismo. Os amigos podiam brincar com tudo, menos com a
Igreja. A fé era território vedado ao humor, como se a crença precisasse de ser
protegida da leveza.
Há aqui
um paradoxo evidente. Como conciliar uma sensibilidade artística tão aberta ao
instinto e ao paganismo subterrâneo da cultura cigana com uma adesão rígida a
uma instituição que sempre desconfiou desses impulsos? Talvez por isso a vida
de Falla pareça mover‑se entre dois polos inconciliáveis: a música que liberta
e a fé que fecha.
A amizade
com Federico García Lorca torna esse contraste ainda mais agudo. O assassinato
do poeta levou Falla ao exílio argentino, de onde nunca mais regressaria à
amada Andaluzia. E é difícil não notar a ironia: o homem que venerava a Igreja
viu‑se incapaz de regressar à terra onde ela foi conivente com a morte do
amigo.
O ser
humano raramente é coerente. E a arte, quando é verdadeira, nasce dessa fratura
entre o que sentimos e o que acreditamos, entre o impulso e a doutrina, entre a
liberdade e o dogma.
Talvez
por isso valha a pena revisitar Falla sem pedir-lhe coerência. É dessa tensão
que a sua música retira a força que ainda hoje nos inquieta.

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