Agora que
o episódio eurovisivo já desceu ao fundo do baú das memórias — esse lugar onde
guardamos o que nos envergonha para não termos de o ver todos os dias — vale a
pena regressar ao essencial.
Um grupo
de oportunistas decidiu usar a palavra Cante como adereço, misturando-a
com a participação oficial de um Estado acusado por múltiplas organizações
internacionais de práticas que violam gravemente os direitos humanos. O
resultado foi um enxovalho. Não apenas da palavra, mas da história que ela carrega.
E é aqui
que Manuel da Fonseca se torna obrigatório. Não como leitura escolar, mas como
vacina. O Cante que ele conhecia — e que tantos alentejanos viveram na
pele — não era um produto turístico, nem um símbolo plastificado para festivais
televisivos. Era voz coletiva. Era resistência. Era memória das lutas que
atravessaram a monarquia, a Primeira República, o Estado Novo e até esta
democracia que ainda tropeça nas próprias promessas.
Há quem
prefira esquecer isso. Há quem trate o Cante como se fosse património
neutro, despolitizado, domesticado. E há até quem, com uma ligeireza que roça a
irresponsabilidade, se associe a figuras da extrema-direita, como se a tradição
pudesse sobreviver amputada do seu sentido revolucionário. Esses figurões
comportam-se como vendilhões de um templo que não é deles. E, como tais,
merecem ser corridos sem apelo nem agravo.
O Cante
não nasceu para agradar. Nasceu para dizer. Para lembrar que a dignidade não é
luxo, que a terra não é ornamento e a voz, quando se junta à do outro, tem
força suficiente para incomodar quem prefere o silêncio. Por isso vale a pena
reler Manuel da Fonseca com atenção renovada. Não para o transformar em santo
laico, mas para recuperar o que ele sabia: a cultura só é viva quando não
abdica da sua memória.
E o Cante,
se quer continuar a ser o que sempre foi, não pode ser entregue a quem o usa
como disfarce. A voz do povo não é figurino. É história. E merece respeito.

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