sexta-feira, junho 26, 2026

O Último Brilho da Cornucópia

 


Só agora, uma dúzia de anos depois da rodagem, vi o documentário de Sofia Marques sobre o projeto do Teatro da Cornucópia de montar uma peça a partir de textos de Federico García Lorca, recorrendo a atores amadores.

Ilusão fica como uma espécie de testamento. Não apenas de um espetáculo, mas de um modo de fazer teatro que tinha em Luís Miguel Cintra e Cristina Reis o seu eixo vital — e, noutros tempos, também se concebeu com Jorge Silva Melo.

Testamento porquê? Porque já ali se prenunciava o fim. A companhia parecia condenada desde o momento em que os criadores deixariam de ter saúde para a dirigir. A Cornucópia era um organismo vivo, mas dependente de dois corpos. E quando começaram a fraquejar, o destino estava traçado.

O documentário é, por isso, mais do que registo. É uma lição de teatro que mostra, da cenografia à direção de atores, quanto trabalho invisível sustenta o posto em cena. A preparação, a conceção, os ensaios, as dúvidas, os gestos mínimos que constroem um espetáculo. A paciência artesanal que sempre distanciou a Cornucópia do ruído à sua volta.

Para mim e para a Elza, cornucopianos militantes, o filme devolve uma memória intensa. As muitas horas em que saímos dali tão estimulados, tão despertos, tão tocados por uma inteligência artística que não se repetia noutro lugar. Era um teatro que pedia atenção. E, em troca, nos devolvia mundo.

Hoje, Ilusão funciona como cápsula. Um fragmento de tempo preservado. O testemunho de que o teatro, quando é verdadeiro, não morre — transforma‑se em memória ativa. E continua a trabalhar dentro de nós.

Vale a pena revisitar a Cornucópia com esta consciência do fim. Porque, às vezes, o que desaparece é apenas o edifício que a abrigava.

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