Há
cidades que se visitam pela primeira vez já tendo sido visitadas, porque o
cinema tratou de as habitar antes de nós, povoando-as de personagens e de luz e
de cheiros que ainda não cheirámos mas reconhecemos quando os encontramos. Nova
Iorque é a mais extrema dessas cidades, e quando lá cheguei pela primeira vez,
em 1977, senti confirmação, não surpresa —tudo aquilo era real, sensação
estranha para quem sabe que foi o cinema a convencer-nos de que era.
A Nova
Iorque do cinema não é uma cidade — é um personagem, construído ao longo de
décadas por realizadores que nela viveram e que a filmaram como se estivessem a
fazer o seu retrato mais íntimo. King Kong escalando o Empire State em
1933 já sabia que a cidade era cenário de tragédias maiores do que a vida real
comporta. Os policiais da Warner dos anos 40 souberam que as ruas molhadas pela
chuva e os becos sem saída eram a metáfora perfeita de um mundo sem saída. As
comédias românticas perceberam que nenhuma outra cidade do mundo tornava o amor
simultaneamente tão improvável e tão inevitável.
E depois
veio Woody Allen, que em Manhattan, em 1979, fez algo que nenhum deles
tinha feito: filmou a cidade em preto e branco como se fosse uma declaração de
amor sabendo que o amor não dura, com Gershwin a subir pelo écran acima
enquanto os fogos de artifício rebentavam sobre o Central Park — uma abertura
de cinema que é também uma elegia, porque Allen sabia, como todos quantos amam
Nova Iorque sabem ser a cidade amada a que já passou, filtrada pela memória e
pelo cinema, afinal a mesma coisa.

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