terça-feira, junho 02, 2026

A Cidade que o Cinema Inventou

 


Há cidades que se visitam pela primeira vez já tendo sido visitadas, porque o cinema tratou de as habitar antes de nós, povoando-as de personagens e de luz e de cheiros que ainda não cheirámos mas reconhecemos quando os encontramos. Nova Iorque é a mais extrema dessas cidades, e quando lá cheguei pela primeira vez, em 1977, senti confirmação, não surpresa —tudo aquilo era real, sensação estranha para quem sabe que foi o cinema a convencer-nos de que era.

A Nova Iorque do cinema não é uma cidade — é um personagem, construído ao longo de décadas por realizadores que nela viveram e que a filmaram como se estivessem a fazer o seu retrato mais íntimo. King Kong escalando o Empire State em 1933 já sabia que a cidade era cenário de tragédias maiores do que a vida real comporta. Os policiais da Warner dos anos 40 souberam que as ruas molhadas pela chuva e os becos sem saída eram a metáfora perfeita de um mundo sem saída. As comédias românticas perceberam que nenhuma outra cidade do mundo tornava o amor simultaneamente tão improvável e tão inevitável.

E depois veio Woody Allen, que em Manhattan, em 1979, fez algo que nenhum deles tinha feito: filmou a cidade em preto e branco como se fosse uma declaração de amor sabendo que o amor não dura, com Gershwin a subir pelo écran acima enquanto os fogos de artifício rebentavam sobre o Central Park — uma abertura de cinema que é também uma elegia, porque Allen sabia, como todos quantos amam Nova Iorque sabem ser a cidade amada a que já passou, filtrada pela memória e pelo cinema, afinal a mesma coisa.

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