domingo, junho 07, 2026

A Música Contra os Muros

 


O tema gazal do disco Jérusalem é de uma beleza rara. Jordi Savall gravou-o há mais de uma década, quando Montserrat Figueras ainda estava viva e a sua voz parecia capaz de sustentar, sozinha, a memória espiritual do Mediterrâneo. É curioso como certas obras, mesmo quando pertencem ao passado recente, parecem falar diretamente ao presente, como se tivessem sido compostas para responder ao que ainda não tinha acontecido.

O disco nasce de uma intenção clara: derrubar barreiras. Não as metafóricas que usamos para enfeitar discursos, mas as reais que separam comunidades, culturas, religiões e histórias que, apesar de tudo, continuam entrelaçadas. Savall sempre acreditou na música como ponte, e não há ingenuidade nisso — apenas a convicção de que a arte, quando recusa ser cúmplice do silêncio, abre caminhos onde a política insiste em erguer muros.

E é impossível ouvir Jérusalem sem pensar nos muros físicos e administrativos que confinam as populações palestinianas. A crítica internacional descreve estes territórios como espaços cada vez mais fechados, onde a vida é restringida por bloqueios, vigilância e violência recorrente. A música de Savall ganha assim uma atualidade inesperada: o que era gesto humanista torna-se denúncia.

Não se trata de simplificar conflitos complexos. Mas reconhecer políticas que produzem sofrimento em escala intolerável. E a arte, mesmo quando não resolve nada, recorda o essencial: antes de qualquer fronteira, havia pessoas; antes de qualquer muro, havia vizinhança; antes de qualquer cerco, havia vida.

Por isso vale a pena escutar Savall como gesto político. Não porque a música substitua a justiça, mas porque a mantém viva. E porque, mesmo tantos anos depois da gravação, Jérusalem continua a dizer o que o mundo insiste em esquecer: a humanidade não se perde por excesso de pontes, mas por falta delas.

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