O tema gazal
do disco Jérusalem é de uma beleza rara. Jordi Savall gravou-o há mais
de uma década, quando Montserrat Figueras ainda estava viva e a sua voz parecia
capaz de sustentar, sozinha, a memória espiritual do Mediterrâneo. É curioso
como certas obras, mesmo quando pertencem ao passado recente, parecem falar
diretamente ao presente, como se tivessem sido compostas para responder ao que
ainda não tinha acontecido.
O disco
nasce de uma intenção clara: derrubar barreiras. Não as metafóricas que usamos
para enfeitar discursos, mas as reais que separam comunidades, culturas,
religiões e histórias que, apesar de tudo, continuam entrelaçadas. Savall
sempre acreditou na música como ponte, e não há ingenuidade nisso — apenas a
convicção de que a arte, quando recusa ser cúmplice do silêncio, abre caminhos
onde a política insiste em erguer muros.
E é
impossível ouvir Jérusalem sem pensar nos muros físicos e
administrativos que confinam as populações palestinianas. A crítica
internacional descreve estes territórios como espaços cada vez mais fechados,
onde a vida é restringida por bloqueios, vigilância e violência recorrente. A
música de Savall ganha assim uma atualidade inesperada: o que era gesto
humanista torna-se denúncia.
Não se
trata de simplificar conflitos complexos. Mas reconhecer políticas que produzem
sofrimento em escala intolerável. E a arte, mesmo quando não resolve nada,
recorda o essencial: antes de qualquer fronteira, havia pessoas; antes de
qualquer muro, havia vizinhança; antes de qualquer cerco, havia vida.
Por isso
vale a pena escutar Savall como gesto político. Não porque a música substitua a
justiça, mas porque a mantém viva. E porque, mesmo tantos anos depois da
gravação, Jérusalem continua a dizer o que o mundo insiste em esquecer:
a humanidade não se perde por excesso de pontes, mas por falta delas.
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