O pintor
Samal Joensen‑Mikines viveu com um dilema moral que nunca conseguiu resolver.
Era filho das Ilhas Faroé. E aí, o ritual da morte das baleias — o grindadráp
— fazia parte da paisagem cultural, da economia local, da memória coletiva. Mas
ele não conseguia olhar para aquilo sem desconforto.
A baía
enchia‑se de homens. E, pouco depois, enchia‑se de sangue. A água tornava‑se
vermelha, espessa, quase imóvel, como se o mar tivesse parado para assistir ao
próprio sofrimento. Mikines via tudo isso. E, mesmo assim, pintava.
Não
pintava por celebração. Pintava por inquietação. Porque a arte não era um
refúgio mas o espelho capaz de devolver um espetáculo terrível, que o
incomodava profundamente. Mas fazia parte da verdade do lugar onde nascera.
As suas
telas mostram homens pequenos diante de animais gigantescos. E também a
violência ritualizada, a baía transformada em ferida. Ou, sobretudo, a
ambiguidade de quem ama uma terra mas não consegue aceitar tudo o que ela faz.
Infelizmente,
o ritual ainda perdura e a causar reprovação internacional. Há imagens que
circulam todos os anos. E sabe-se mais sobre a inteligência das baleias, a sua
comunicação, a sua vulnerabilidade. A tradição resiste — e a crítica também.
Mikines,
ao pintá‑la, não a legitimou. Expô‑la. Trouxe‑a para o domínio da consciência.
Transformou o que era costume em questão. E, ao fazê‑lo, deixou um testemunho
que continua a interpelar quem olha para aquelas telas hoje.
Vale a
pena pensar no papel da arte diante da violência. Porque, às vezes, o que um
pintor faz não é justificar — é impedir que se esqueça.

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