segunda-feira, junho 29, 2026

A Baía Vermelha

 


O pintor Samal Joensen‑Mikines viveu com um dilema moral que nunca conseguiu resolver. Era filho das Ilhas Faroé. E aí, o ritual da morte das baleias — o grindadráp — fazia parte da paisagem cultural, da economia local, da memória coletiva. Mas ele não conseguia olhar para aquilo sem desconforto.

A baía enchia‑se de homens. E, pouco depois, enchia‑se de sangue. A água tornava‑se vermelha, espessa, quase imóvel, como se o mar tivesse parado para assistir ao próprio sofrimento. Mikines via tudo isso. E, mesmo assim, pintava.

Não pintava por celebração. Pintava por inquietação. Porque a arte não era um refúgio mas o espelho capaz de devolver um espetáculo terrível, que o incomodava profundamente. Mas fazia parte da verdade do lugar onde nascera.

As suas telas mostram homens pequenos diante de animais gigantescos. E também a violência ritualizada, a baía transformada em ferida. Ou, sobretudo, a ambiguidade de quem ama uma terra mas não consegue aceitar tudo o que ela faz.

Infelizmente, o ritual ainda perdura e a causar reprovação internacional. Há imagens que circulam todos os anos. E sabe-se mais sobre a inteligência das baleias, a sua comunicação, a sua vulnerabilidade. A tradição resiste — e a crítica também.

Mikines, ao pintá‑la, não a legitimou. Expô‑la. Trouxe‑a para o domínio da consciência. Transformou o que era costume em questão. E, ao fazê‑lo, deixou um testemunho que continua a interpelar quem olha para aquelas telas hoje.

Vale a pena pensar no papel da arte diante da violência. Porque, às vezes, o que um pintor faz não é justificar — é impedir que se esqueça.

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