Há ciclos
no cinema como os há na natureza — temas que regressam em vaga, sem concerto
aparente, como se os realizadores de diferentes países e línguas tivessem
acordado na mesma inquietação sem se terem consultado. Nos últimos tempos tenho
visto passar pelos olhos, entre longas e curtas, vários filmes em que o tema é
a distância entre uma filha e o pai — o pai que deriva, o pai que desaparece, o
pai que se torna criança enquanto a filha se torna adulta antes de tempo.
At
Home I Feel Like Leaving, do austríaco Simon Maria Kubiena, é mais um desses: uma
jovem regressa à aldeia natal no sopé dos Alpes porque o pai, de comportamento
cada vez mais infantil e imprevisível, desapareceu nos bosques.
A noite
de São João prepara-se, a fogueira tradicional vai ser acesa, e ela debate-se
entre o peso da responsabilidade familiar e o desejo de recuperar a leveza de
outrora com uma amiga de infância —microcosmo simultaneamente amoroso e
sufocante que é a terra de onde se fugiu e a que se é sempre convocado a
regressar.
O que
estes filmes em ciclo nos propõem, sem o declarar, é uma dupla reflexão: sobre
a nossa condição de filhos, que um dia descobrimos não conhecer os pais tão bem
quanto julgávamos; e sobre a nossa condição de pais, perguntando-nos que
distâncias criámos sem o perceber, que quartos fechámos sem deixar chave.
São
perguntas que o cinema faz melhor do que a filosofia, porque encarna-as em
rostos e em bosques noturnos e em fogueiras de São João.

Sem comentários:
Enviar um comentário