domingo, maio 31, 2026

O Barroco intemporal

 

Belo o final do concerto que Christoph Rousset dirigiu no Théâtre du Châtelet para celebrar os trinta anos dos seus Talens Lyriques! E como não escolher a ária mais célebre de Les Indes Galantes, uma das peças mais jubilatórias do barroco francês, música que parece nascer de um impulso vital que atravessa séculos e continua a surpreender pela energia luminosa que transporta?

Talvez tenha sido essa jubilação que me levou a aderir ao espetáculo com a mesma disponibilidade com que se regressa a algo que já se sabe que fará bem, porque há momentos em que a música barroca funciona como claridade interior, ordem que se instala sem esforço e devolve ao corpo uma respiração mais lenta.

Eduardo Prado Coelho dizia escolher este período como banda sonora preferida para as suas leituras, como se o barroco oferecesse o equilíbrio necessário entre movimento e contenção, entre exuberância e rigor.

Entendi melhor essa escolha ao ouvir Rousset conduzir a orquestra com precisão que não excluía o prazer, gesto que tornava evidente como esta música continua a ser capaz de suster o tempo e criar um espaço onde a atenção se recolhe, e talvez seja por isso que volto sempre ao barroco com a sensação de reencontro, como se nele houvesse promessa de ordem possível num mundo que tantas vezes se apresenta fragmentado.


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