domingo, março 29, 2009

JORIS IVENS: UM CINEASTA A RECORDAR

Joris Ivens foi um cineasta militante, que esteve presente em todas as latitudes, aonde a Revolução Socialista parecia exequível de se cumprir: na URSS, na China, em Cuba, em Espanha, no Vietname.
Cineasta de vanguarda ele filmou o homem e a máquina, na fábrica ou na cidade como hinos ao progresso, ao movimento, ao trabalho.
Poeta experimental, consagrou uma das suas primeiras curtas-metragens à «Chuva» (estava-se em 1928 e ele contava 30 anos), e a sua última obra, em 1988, precisamente um ano antes de morrer é «Uma História do Vento».
É um facto que este holandês é, há muito, reconhecido - a par de Robert Flaherty - como um dos grandes documentaristas do primeiro século do cinema
Vista em retrospectiva, a sua filmografia permite seguir uma trajectória impressionante entre o lirismo e o realismo, entre testemunho e utopia, nos sessenta anos em que andou a dedicar a atenção aos vencidos e aos rebeldes do planeta...
Nascido para o cinema a meio da década de 20 em pleno entusiasmo pelas vanguardas artísticas, Joris Ivens realiza um conjunto de ensaios nos quais já se pressentem as linhas de força do seu empenhamento posterior.
Se os seus «Estudos dos movimentos em Paris» e «A Ponte» são verdadeiras maravilhas estéticas (a lembrarem Dziga Vertov), a sua «Sinfonia Industrial», rodada nas fábricas Philips em início dos anos trinta, corresponde a um simultâneo elogio ao progresso técnico e a uma tomada de consciência da monotonia do trabalho em cadeia de produção.
A poesia e a política não deixarão de andar a par, quer para empolar a gesta proletária e as lutas sociais, quer para denunciar as malfeitorias capitalistas.
Com «Komsomol: o canto dos heróis» (1933) Joris Ivens glorifica o operário soviético como reflexo do triunfante estalinismo, durante a construção de um alto forno numa região desértica da União Soviética.
Que olhar é possível assumir perante tal objecto de propaganda? É forçoso reconhecer essas imagens como ingénuas, mais do que como mentirosas, tanto mais que a grandeza do ser humano é filmado aqui como uma projecção do espírito generoso do cineasta.
Mas é decerto com o seu filme seguinte, que Joris Ivens melhor descreve o indivíduo a contas com o seu contexto natural e social.
Documentário encomendado pelo governo holandês sobre os trabalhos de criação de um polder, «Nova Terra» começa como reportagem num imenso estaleiro cujo objectivo é o de conquistar ao mar milhares de hectares de terras férteis. Mas, após mais de dez anos de trabalhos e uma primeira colheita de trigo, a crise mundial (de 1929) conduz à queda dos preços e à destruição dos stocks.
«O trigo não é cultivado para alimentar as pessoas, mas para especular», diz o comentário tendo por pano de fundo as imagens de marchas contra a fome nos EUA.
O hino aos trabalhadores torna-se acusação política, sobretudo em «Borinage» (1934), um dos seus filmes mais célebres e pessimistas sobre uma greve numa bacia mineira e sobre a selvajaria da exploração operária.
Joris Ivens está depois ao lado dos republicanos espanhóis com quem roda o magnifico «Terra de Espanha» (1937) e com a resistência chinesa contra a invasão japonesa («Os 400 milhões»), partilhando depois a vida quotidiana dos camponeses vietnamitas sob os bombardeamentos americanos nos finais dos anos 60 («O 17º paralelo», um dos mais importantes filmes rodados sobre essa guerra) ou ainda investigando a realidade da China maoísta a meio dos anos 70 («Como Yukong deslocou montanhas»).
Joris Ivens é um cineasta da esperança revolucionária tão atento à transformação industrial do mundo como à epopeia dos povos em movimento sem esquecer a beleza dos malditos da terra … ou da forma das nuvens.
Com a sua fé inquebrantável nas virtudes da imagem ele soube construir uma visão do mundo, que homenageia os ideais progressitas da curta, mas terrível história do século XX.

sábado, março 28, 2009

IMAGENS DO MUNDO NO CANAL ARTE

«Louise ou l’islam par l’amour», documentário de Beatrix Schwehm, mostra um incompreensível paradoxo: os pais da protagonista são cultos e liberais nos seus valores, mas não conseguem impedir a filha de se apaixonar e casar com um rapaz muçulmano, por quem ela passa a vestir-se como a mais fundamentalista das mulheres dessa cultura.
Embora procurem respeitar essa opção, esses pais sentem-se incapazes de entender essa transformação, mesmo que a busquem contestar as idiossincrasias do jovem casal pelo diálogo.
É dramática essa distinção de valores entre quem faz da vida a oportunidade para tudo compreender e equacionar e quem a considera como uma mera etapa num percurso religioso pejado de certezas. E a incapacidade de quem está na primeira dessas vias em abalar, por pouco que seja, os defensores da segunda opção em sequer suporem os seus axiomas como passíveis de ponderação.


***


Sábado ao fim da tarde perante o canal ARTE é a oportunidade para confrontarmo-nos com algumas realidades mais ou menos mediáticas do mundo actual.
No programa subordinado a grandes reportagens são três as que nos dão a conhecer o que se passa em diferentes latitudes do planeta. Em Madagáscar, por exemplo, afere-se até que ponto existe legitimidade na tomada do poder pelo novo Presidente, um jovem nascido num dos bairros pobres de Antatanarivo e tornado conhecido pela sua actividade de disc jockey na rádio.
É verdade que o anterior titular da função presidencial parecia demasiado corrupto, mas há quem se questione se Andry Rajoelina não será um mero testa de ferro de gente endinheirada da ilha cujos interesses estariam a ser postos em causa pelo projecto de enriquecimento estritamente pessoal do seu antecessor.
É verdade que Rajoelina utiliza a palavra democracia com uma ingénua franqueza. Mas a forma de a executar parece limitar-se a favorecer a livre concorrência, quando estamos num tempo em que sabemos bem o que essa concepção da organização económica suscitou…
Mudando de continente, deparamos com uma situação inesperada em plena Bolívia. Aí, em La Paz, fica a prisão de San Pedro, que constitui por si mesma uma cidade dentro da cidade. Aonde os prisioneiros vivem com as famílias e têm de trabalhar para garantir o seu sustento. Sempre controlados pelas máfias, que não deixam de estar no topo da pirâmide social em conluio com a direcção da prisão.
Que haja turistas dispostos a pagar uns dólares para visitarem esse inferno na terra, é o que mais surpreende sobre a ilimitada curiosidade dos que saem das suas casas abastadas para, em visitas organizadas por agências apostadas em explorar as mais indignas vertentes do negócio, verem a miséria alheia…
Na terceira reportagem do programa estamos no Camboja, em aldeias aonde sobreviventes do genocídio aí ocorrido vivem ao lado dos antigos khmers vermelhos responsáveis pela morte dos seus familiares.
É certo que os valores culturais são diferentes dos nossos, mas imagina-se a ambiguidade dessa convivência aonde desejos de vingança devem ser contrabalançados pelo discurso oficial do carácter imperativo da concórdia…
Já em documentário à parte, somos convidados para a extremidade oriental do continente asiático: na península do Kamchatka acompanhamos o quotidiano de uma vulcanóloga apostada em conhecer algo mais sobre a realidade turbulenta, que todos os cidadãos do planeta têm debaixo dos pés. Esse magma que, a par do calor solar, fundamenta a diferença entre o nosso planeta vivo e os que vogam silenciosos e sem vida pelo universo…

quinta-feira, março 19, 2009

Cecilia Bartoli - Ah, non credea mirarti...Ah! non giunge

Que bela é esta ária! A história, como acontece normalmente na ópera italiana desta época, é um bocado tonta, mas a música chega a ser sublime, quer quando a voz da Bartoli se silencia, quer quando ela consegue, em som, o carácter plangente de um amor, que se crê definitivamente perdido.

terça-feira, março 17, 2009

Bipolares

Uma reportagem da SIC sobre doentes bipolares deram-nos o ensejo de espreitar os dramas vividos por gente conhecida: uma das filhas do conhecido defensor dos direitos do consumidor, Beja Santos, que padece de uma das formas mais gravosas de tal maleita, chegando a agredir violentamente a progenitora numa dessas crises em que parecia completamente possuída por uma personalidade desconhecida noutros tempos associável a algo de exorcizável enquanto manifestação demoníaca!
Ou a juíza Conceição Oliveira, em tempos a mais mediática do país por atirar com Vale e Azevedo para a prisão, e cujos padecimentos incluíram tentativas falhadas de suicídio. Ou o escritor Pedro Paixão, que se reformou precocemente por se revelar inviável a continuação da sua carreira de professor universitário.
Porque é problema extremamente grave e de difícil gestão pelas famílias, a doença bipolar acaba por ser um tema bastante interessante. Quanto mais não seja, porque sabemos bem os efeitos angustiantes que uma perturbação mental pode complicar na vida de uma família….

segunda-feira, março 16, 2009

Em homenagem a Alan Bashung

Repetindo um percurso já conhecido outrora por Serge Gainsbourg com quem tinha muitos pontos de contacto (a começar pela condição de fumador inveterado e pela de doente de cancro nos pulmões), Alan Bashung morreu ontem aos 61 anos.
Fica aqui um dos seus temas mais conhecidos: «Les Mots Bleus». Como homenagem a mais um interessante cantor da música francesa, que passa definitivamente à história...

domingo, março 15, 2009

Big in Bombay - Constanza Macras / Dorky Park

No CCB este espectáculo surpreendeu no que corresponde a caminhos inovadores da dança contemporânea.
Talvez preferisse que a coreógrafa não acumulasse tanta informação e reduzisse os momentos (quase) mortos, mas foi admirável o desempenho de quase todos os intervenientes, sobretudo quando os números de dança imitavam os de Bollywood...

sábado, março 14, 2009

As mulheres não dão para a comédia?

Numa das edições do «Guardian» da semana transacta a conhecida feminista Germaine Greer interrogava-se das razões porque têm mais sucesso os comediantes masculinos do que as suas congéneres do sexo oposto. Não deixando de reparar que o êxito destas últimas parece relacionar-se com a provocação do riso em torno de temas como as mamas, a menstruação ou outras vertentes da sexualidade feminina, que garantem riso alarve na boçalidade machista dos seus espectadores. Ou, em alternativa, fazendo das outras mulheres o objecto quantas vezes perverso da sua farsa: uma das principais comediantes norte-americanas da segunda metade do século passado conseguiu criar nome no negócio do espectáculo ao fazer de Elizabeth Taylor o foco da sua sátira.
Mas Greer considera que os comediantes masculinos prevalecem pela facilidade com que se dão ao ridículo. As mulheres teriam, nesse aspecto, um maior comedimento com a imagem, que de si transmitem, tornando-se menos empáticas junto de um público mais propenso à palhaçada. Aliás, contrariando a tese de que, num grupo de homens, o que conta mais anedotas, é o que busca a sua liderança, ela defende o contrário: o comediante de cada grupo é um dos seus mais frágeis elementos, incapaz de se afirmar pela força dos seus punhos ou pela eloquência do seu pensamento, restando-lhe a arma do riso para se conseguir destacar.
É claro que a pergunta inicial - porque têm mais sucesso os homens do que as mulheres na comédia tipo stand up? - fica por responder. Mas a razão poderá relacionar-se com o que dizia o Miguel Esteves Cardoso numa das suas mais recentes crónicas do «Público»: simplesmente, porque as mulheres são bem melhores do que os pobres de espírito, que são a generalidade dos homens. Que na superficialidade do riso buscam iludir a sua incapacidade para os pensamentos mais profundos.

domingo, março 01, 2009

NÃO HÁ-DE ESTAR A UNIÃO EUROPEIA EM CRISE?

Decorreu hoje mais uma cimeira da União Europeia para demonstrar, uma vez mais, quanto ela se dissocia tanto do projecto dos seus pais fundadores: criar as condições para a criação de uma entidade continental capaz de rivalizar em poder e riqueza com as grandes superpotências entre as quais se via então espartilhada.
Hoje, em plena crise económica e financeira, há fortes probabilidades de alguns dos membros mais recentes da União conhecerem uma situação de falência como a já verificada na Islândia. Com todos os riscos derivados para a paralisia do mercado interno e para a fragilidade da moeda única.
Causa, por isso, genuína indignação o discurso tolo de Durão Barroso que, face à impossibilidade em chegar a um qualquer acordo desbloqueador dos impasses presentes, afirma manter-se atento à situação. Como sempre a mediocridade do presidente da Comissão só não parece uma demonstração plena do Princípio de Peter, porque ele se alçou a patamares aonde nunca a sua inteligência, nem as suas competências o poderiam nunca levar.
Mas o mundo e a sua história têm destas coisas: aos valorosos trata de sonegar o acesso aonde deveriam chegar, enquanto aos medíocres teima em confrontá-los com as consequências tenebrosas das suas incompreensíveis ascensões.
Se George Dabliú já se foi, ainda ficaram cá muitos dos seus émulos.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Joseph Haydn Piano Trio in G Major

Trata-se do terceiro andamento de uma peça de Haydn, nitidamente influenciada pelos ritmos dos ciganos da Europa de Leste.
Nesta época do Classicismo a música era um divertimento concebido para usufruto das classes dominantes, que contratavam pequenos grupos de câmara ou mesmo orquestras de reduzida dimensão para povoar de sons as suas festas ou serões.
Este trio para piano, violino e violoncelo integra-se na oerfeição em tal tipo de enquadramento.

sábado, fevereiro 21, 2009

Anne-Sophie Mutter - Beethoven Violin Concerto 3rd mvt

É um dos mais belos concertos de Beethoven. E Anne Sophie Mutter é, decerto, uma das suas mais exímias intérpretes.
Há trechos musicais que me dão muito prazer aqui inserir, mas este é decerto um daqueles em que tal prazer é ainda mais superlativo.

In the Valley of Elah

Já «Colisão» fora um filme elucidativo sobre o mal estar de uma América completamente dissociada dos valores dos seus pais fundacdores.
A Guerra no Iraque só contribuiu para ainda maiores transformações de anjos em monstros...

Paul Haggis: «No Vale de Elah»

«No Vale de Elah» tinha todas as condições para merecer várias nomeações para Óscares, para além da que coube a Tommy Lee Jones pelo seu papel principal. Mas a América de George W. Bush, em 2006, ainda estava longe de reconhecer o quão mergulhada estava num verdadeiro atoleiro, aonde o frágil David poderia derrubar o forte Golias a exemplo do que sucedera há muitos séculos atrás nesse referido vale. Porventura, na presente América de Obama, o filme teria outro acolhimento do público e da Academia de Hollywood.
Porque se trata não só da guerra no Iraque, mas também nas suas consequências junto de soldados vindos desses traumáticos cenários.
À partida o veterano Hank Deerfield parte à procura do filho Mike, desaparecido do seu quartel alguns dias atrás e cujo cadáver aparece apunhalado, carbonizado e cortado aos bocados num campo baldio. Patriota, nada o faz suspeitar da terrível realidade, que se ocultava por trás da personalidade do seu filho.
Ajudado por uma agente policial, apostada em se afirmar perante os seus misóginos colegas, Hank irá descobrir todas as alterações provocadas no filho pelo que ele vira no Iraque. O quase anjo anteriormente personificado acaba por se revelar um monstro, que se droga, insulta strippers ou se envolve em zaragatas.
E nos filmes resgatados do seu telemóvel o pai surpreende em Mike uma vocação de sádico torturador.
Mas não é só Mike quem se transmuta: à sua volta há outros soldados, que começam por afogar o cão doméstico na banheira como preparação para o fazerem com a própria mulher dias depois. Ou os que viram psicopatas se quase darem pelas consequências dos seus actos.
O filme de Paul Haggis acaba por ser um terrível libelo contra uma guerra injustificada, despoletada por um presidente idiota acolitado de uma corte de gananciosos oportunistas. E a imagem desacreditada, que fica da América, está bem evidenciada na bandeira virada de pernas para o ar, que Hank afixa no mastro em frente à sua casa. O patriota passou a olhar para os seus valores e crenças com um cepticismo, que prenuncia a reviravolta política aí acabada de suceder.
Possa agora Obama prefigurar uma inflexão completa do rumo seguido até aqui e conclua pelas vantagens de negociar em vez de matar e prender quem ama o seu país ao ponto de nele rejeitar quaisquer invasores…

domingo, fevereiro 15, 2009

«Honra de Cavalaria» de Albert Serra

«Honra de Cavalaria» é um filme muito contemplativo do catalão Albert Serra em torno do mito de D. Quixote.
Os dois personagens vão vagueando indolentemente pelos campos da Mancha até a noite cair e as sombras negras os envolverem nas brumas de um esquecimento, que é o dos seus valores. Estes têm a ver com uma mítica Idade do Ouro, quando não existiam guerras nem quaisquer outros tipos de conflito. Uma Idade em que todos se estimavam…
É claro que Sancho não passa de um criado e Quixote o seu prepotente senhor, mas este último não se exime de tentar convencer aquele da fraternidade que os une: um será o irmão mais velho do outro!
Farto daquele cirandar inconsequente, Sancho ainda se sente tentado a fugir daquele lunático, que tenta interpretar nas nuvens do céu as orientações para si dadas pelo Deus em que acredita. Mas deixa-se convencer a ficar e a ouvir as sempiternas teses do decrépito cavaleiro: « A Cavalaria é a Civilização. Recompensa os que falam verdade e castiga os que mentem. A Cavalaria é o raciocínio em acção».
Muito lento, trata-se de obra para degustar num estado de espírito muito próprio, porque visto ao acaso incomodará pelo tédio, que aparentará criar.
Mas, depois de, há muitos anos atrás, ter passado ao lado do muito elogiado «A Sombra do Marmeleiro» de Vítor Erice por manifesta falta de disponibilização mental para o apreciar, não quererei incorrer de novo no mesmo erro.

«O Caminho Perigoso das Coisas» de Michelangelo Antonioni

«O Caminho Perigoso das Coisas» é o terceiro sketch do filme «Eros», que conjuga a arte cinematográfica de Wang Kar Wai, de Steven Soderbergh e de Michelangelo Antonioni.
No episódio deste último, precisamente aquele que corresponde ao título aqui referenciado, volta-se aos temas obsessivos do realizador, apesar de, nesse ano de 2004, já ele estar demasiado diminuído fisicamente pela doença e, portanto, se poder admitir a possibilidade de uma reorientação das suas inquietações. Ao invés continuamos no terreno instável das relações amorosas entre gente endinheirada para quem a sobrevivência do dia a dia é questão comezinha em comparação com as preocupações relativas à falta de diálogo entre quem se devia amar.
O episódio começa, precisamente, pela manifestação de insatisfação de Christopher em relação a Cloe a quem acusa de falta de empenhamento na relação a dois.
O rompimento do vínculo entre ambos parece iminente pela manifesta falta de comunicação. Mesmo quando, por mero acaso, vão parar a um cenário paradisíaco em cuja cascata uma sereia canta:
«Porque nunca viemos aqui antes?», pergunta ele. E pressupõe no seu desalento a falta de curiosidade sobre tudo quanto os rodeava.
«Ao menos tens recordações de coisas bonitas?», prossegue ele. E Cloe responde-lhe mais adiante, noutro belo local aonde lhe diz:
«Sempre gostei deste espaço, mas, hoje, ele oprime-me!»
O jogo de massacre dessa relação vai prosseguindo nesse seu cirandar por sítios por onde se vão multiplicando os símbolos do estado desse desamor: um copo de vidro a rolar pelo chão, uma outra mulher a recolher maçãs para os seus cavalos e objecto da atenção de Christopher.
Não admira, já que é com essa Luísa, que ele irá à procura do que em Cloe não encontra. Mas tratar-se-á, tão só, de uma relação sem amanhã, já que, em breve, ele escreverá a Cloe de Paris aonde neva, sempre a lamentar a impossibilidade de se entenderem.
E o filme acaba com as duas mulheres nuas na praia em pressentida aproximação.
Será que a mensagem de Antonioni será a de que, incapazes de se satisfazerem com a incompetência masculina, restará às mulheres encontrarem o afecto numa solução lésbica?

domingo, fevereiro 08, 2009

ELINA GARANCA NA GULBENKIAN

Elina Garanča tornou-se-nos conhecida através da sua partilhada interpretação com Anna Netrebko do divinal Dueto da Flor da ópera «Lakhmé» de Delibes.
Nessa altura a sua voz pareceu emparceirar na perfeição com a conhecida soprano russa. Equiparando-se-lhe, se não mesmo ultrapassando-a em capacidade vocal. O que não surpreende atendendo à sua condição de mezzo soprano.
Agora, em Lisboa, a sala do Grande Auditório da Gulbenkian quse encheu para apreciar as suas interpretações de um conjunto de compositores diversificados em estilos e em línguas: Brahms, Schumann, Rossini, Vitols e Manuel de Falla.
Acompanhada ao piano pelo experiente Charles Spencer a cantora mostrou todos os seus dotes vocais num reportório difícil mas servido a contento.
Elina Garanča deu razão a quem a integra na linha dianteira dos grandes nomes do canto lírico actual.

MONA LISA SHOW

Entramos na sala e os actores olham-nos no rosto. Sorridentes, como se quisessem ganhar a nossa simpatia. No exacto contrário do que Brecht propunha com a sua teoria do distanciamento entre o espectador e o que se passa no palco…
Depois, durante hora e meia, temos sete actores a desdobrarem-se em múltiplos papéis, que nos devolvem para a realidade do nosso dia-a-dia e para quem connosco se costuma cruzar nos empregos, na rua, nos ambientes familiares.
Em geral são personagens insatisfeitos com o que fazem. Por culpas próprias, por falta de talento ou, pura e simplesmente, por manifesta falta de sorte…
Quase todos vivem inquietos, se não mesmo angustiados com a sucessão sempre igual dos seus dias. Aonde quase nunca cabe a esperança. Excepto, quando se abrem para os sonhos impossíveis e se deixam embalar por utopias irrealizáveis.
Por isso no final os sete rostos simpáticos dão lugar a expressões crispadas de quem se sente acossado. Embora lentamente eles se aligeirem e as luzes se apaguem sobre os seus rostos serenos, porventura desencantados e sem vontade de continuarem a contrariar o rumo das coisas.
Fica assim uma síntese possível da peça «Mona Lisa Show», vista há dias na sala do Teatro Meridional.

sábado, fevereiro 07, 2009

MONA LISA SHOW

Não o vimos quando esteve em Outubro no CCB, mas o regresso a Lisboa ao Teatro Meridional permitiu-nos encontrar esses personagens, que equivalem a muitos com quem contactamos nos nossos dias. Gente inquieta, angustiada, mas capaz de enveredar pelo sonho, quando é preciso acreditar!

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A Viagem do Elefante

Será o elefante Salomão uma divindade? É o que sobre ele perguntam ao cura mal desperto os aldeões de um dos sítios por onde o paquiderme vai passando na sua lenta viagem para Valladollid.
Tendo surpreendido uma conversa entre o cornaca Subhro e o comandante do destacamento militar enviado por D. João II para acompanhar o seu presente ao primo Maximiliano, arquiduque da Áustria, eles questionam as verdades axiomáticas da Igreja, quando a Inquisição estará em vias de se implantar no rectângulo lusitano.
Tão pressionado se sente o clérigo, que logo decide avançar para uma bênção ao animal, dando razão ao que o escritor sugere - que o povo unido jamais será vencido.
Muito oportuna essa intervenção contínua do narrador enquanto observador distanciado da trama e, como tal, legitimado na sua condição de crítico das próprias opções estilísticas do texto. A confirmar que, apesar de seriamente debilitado pela doença, jamais Saramago pareceu tão irónico no que publicou.
Um sinal inequívoco de uma grande sabedoria sobre a vida e as suas múltiplas manifestações…

Uma questão de silêncios

Numa entrevista à Antena 2 o Luís Sepúlveda estabelecia, já lá vão umas semanas, uma grande distinção entre a direcção de orquestra de Celibidache em relação à de Karajan. Aonde este último primava pela técnica perfeita, o romeno dava espaço para a afirmação dos silêncios entre as notas. O resultado era completamente diferente, como se pode detectar no «Allegreto» da 7ª Sinfonia de Beethoven.
Ora esta questão dos silêncios vem entroncar numa das grandes acusações de que sou alvo cá em casa: parece existir em mim uma tal aversão ao silêncio, que tenho de ter sempre a música ou qualquer outra forma de som a acompanhar-me no que vou fazendo.
E, no entanto, reconhecendo essa minha forma de estar na vida, também não deixo de me sintonizar com essa apreciação do escritor chileno: é que se gosto imenso de boa música, não deixo de nela apreciar a sábia emergência dos silêncios.

sábado, janeiro 31, 2009

Beethoven - Symphony n.7 [2/4] - Abbado (Berliner Phil) Rome

Este Allegreto de Beethoven, ademais dirigido pela sábia batuta de Claudio Abbado, é um dos mais belos trechos que a História da Música comporta. Mormente se nos deixarmos levar pela sucessão de silêncios entre cada nota. Porque esta é música para se saborear sem pressas e em momentos de perfeição...