sábado, julho 18, 2009

A tristeza segundo Preminger

Em cinquenta anos o cinema mudou muito e «Bonjour Tristesse», o filme que Otto Preminger rodou então demonstra-o bem.
A história, baseada no romance homónimo da então aclamada Françoise Sagan, é muito pobrezinha, espelhando uma mudança de paradigma na cultura francesa de então: a passagem de uma escrita ideologicamente bastante consistente à esquerda para uns existencialismos inócuos, que encontrava nestas angústias adolescentes e burguesas um subproduto bastante apreciado.
Por outro lado a representação é canónica em relação aos costumes da época, mas de limitados recursos apesar de envolver algumas das grandes estrelas de então - David Niven, Deborah Kerr e Jean Seberg.
Quanto à realização, que dizer da sua enfadonha banalidade?
E, no entanto, é possível pegar na história e problematizá-lo de forma a sair de uma apreciação mais básica. Por exemplo, o que levará a jovem Cécile a intrometer-se nas aventuras amorosas do seu mulherengo pai não será indiciador de um evidente Édipo por resolver?
Noutra perspectiva não deixa de ser curiosa a perspectiva dos personagens masculinos serem completamente manipulados pelas femininas, que exploram a sua tendência para ditarem os seus comportamentos pela acção descontrolada das suas hormonas, tornando-se seus joguetes.
Duas leituras de entre as muitas possíveis para demonstrar como até o mais entediante pastelão pode ganhar algum interesse se apostarmos em o analisar para além do seu nível de leitura mais imediato.
Haverá, porém, quem opte por realçar uma lógica moral mais conservadora, já que todo o argumento gira em torno da má consciência da protagonista, essa rapariga de 17 anos, que decide conspirar contra a futura madrasta, quando a vê coarctar-lhe a liberdade de movimentos e acaba por lhe provocar a morte num suicídio mascarado de acidente. E esta abordagem, embora admissível, acaba por justificar todos os discursos contra as «excessivas liberdades» conferidas à juventude, à importância dos «valores familiares» e outras fórmulas similares pelas quais as forças ideológicas mais retrógradas vão tentando travar a lógica evolutiva da História dos usos e costumes da Humanidade.

sexta-feira, julho 17, 2009

Um homem muito procurado segundo Le Carré

Não está fácil a vida para Tommy Brue, um banqueiro sexagenário cuja instituição está sediada em Hamburgo, depois de ter passado, em tempos idos, por Londres e Viena. Instituição de pequena dimensão, mas muito prestigiada, a Irmãos Brue tem um problema estrutural a ameaçá-la: as contas lippizan, criadas no tempo do pai de Tommy - Edward - para branquear capitais ilícitos de antigos espiões ocidentais no seio das instituições soviéticas.
O mais notório desses espiões fora Karpov, um coronel do Exército Vermelho, que legara a sua fortuna ao filho ilegítimo resultante da sua violação a uma adolescente chechena.
Agora, vinte anos depois, esse rapaz - Issa - vem à procura de tal dinheiro sob a pele de um militante islamista meio desvairado, que diz ter por projecto de vida usá-lo para se tornar médico.
Quem o ajuda é uma advogada de boas famílias - Annabel - devotada defensora das melhores causas como esta de ajudar imigrantes clandestinos a encontrarem a sua via para a sobrevivência. E é ela quem se apresenta a Tommy Brue a reclamar o que é devido ao seu cliente.
O problema para Tommy é compreender que a idade avançada não o impede de alimentar uma paixão juvenil pela rapariga. E que, atrás de Issa, andam os serviços secretos ingleses, alemães e sabe-se lá quais mais…
Chegado a meio do livro - «Un Homme três recherché» - há várias pontas soltas numa história que irá ganhar consistência para uma direcção ainda não adivinhada nesta altura...

sexta-feira, julho 10, 2009

E fiquei à espera das Variações Diabelli

Chegando este ano aos quarenta anos de idade, Bereszovski estará nesta altura no auge da sua carreira. E a sua carreira leva-o a permanentes digressões pelas grandes salas de concerto de todas as latitudes. Foi, assim, que dele vimos em tempos um concerto ao vivo, embora nos tenhamos sentido então defraudados. Estavam-nos prometidas as Variações Diabelli, mas Bereszovski já se sentia tão cansado de sucessivos concertos nos dois dias anteriores nessa Festa da Música, ainda sob a égide de René Martin, que decidiu-se por outra alternativa: apresentar-se com os seus dois parceiros de um trio já rodado em concertos e gravações - Dmitri Makhtin (violino) e Alexandre Kniazev (violoncelo) - e presentear o público do CCB com um espectáculo em que ele se apagou em proveito do virtuosismo dos seus dois cúmplices.
Agora o documentário em causa mostram-nos facetas desconhecidas do intérprete: o seu gosto pela improvisação, que o leva a tocar jazz com alguns amigos nos bares de Ekaterinburgo, ou pelos casinos aonde perde dinheiro invariavelmente.
Os concertos ao vivo são para ele uma forma de vida, mais do que um prazer em si, já que esse fica reservado para o estudo solitário das peças, quando se fecha em casa.
Decerto que nos próximos anos ainda voltaremos a ter a oportunidade para novamente lhe apreciar o virtuosismo irrepreensível. Aquele que o levam a tocar com a mão esquerda as difíceis peças de Chopin, que outros tão dificilmente executam com o recurso às duas mãos.
Gostaria não só de ver ao vivo essas tais Variações beethovenianas, mas sobretudo essas peças de Rachmaninov, tão lendariamente exigentes e nas quais ele tem porfiado o seu esforço nos últimos tempos. Tanto mais que nunca se o vê olhar para uma pauta durante os seus concertos...

domingo, julho 05, 2009

Uma leitura que me desilude

Acabou por me desiludir a novela do Stephen King, que andava a ler: «Janela Secreta, Jardim Secreto».
Recordo o que estava em jogo: um escritor é acusado de plágio por um sinistro campónio vindo do Mississípi e eivado de propósitos homicidas se aquele lhe não demonstrar a falsidade do seu juízo. Estão em causa duas datas: John Shooter teria escrito o seu conto em 1982 e Mort Rainey afirma ter provas da sua publicação numa revista de 1981.
E, no entanto, as provas por que ele espera comprovar a sua afirmação e livrar-se da ameaça, começam a evaporar-se quando fica em cinzas a casa da ex-mulher em cujo anexo ele teria uma cópia dessa revista ou, ao ser-lhe enviado outro exemplar pelo correio expresso, as páginas do índice e das folhas aonde tal conto apareceria estavam eliminadas.
A páginas tantas cheguei a suspeitar do antipático fumador de cachimbo por quem Amy trocara Mort desde o dia em que este os encontrara em flagrante num quarto de motel. Afinal também ele viera de uma pequena localidade sulista de nome Shooter e poderia sentir-se diminuído pela superioridade intelectual de Mort, desejando assim eliminá-lo enquanto concorrente aos favores de uma ainda insegura Amy.
Mas, pouco a pouco, percebe-se que a novela não é mais do que uma nova variante dos temas abordados pelo autor em «Shining», ou mesmo em «Misery»: ou seja, entre o escritor que enlouquece e escreve milhentas vezes a mesma palavra e o leitor obsessivo apostado em que lhe redijam uma história só para si, eis o conteúdo de «Janela Secreta, Jardim Secreto».
E nesse mais do mesmo sem novidade se resume a minha decepção ao concluir a sua derradeira página.

domingo, junho 28, 2009

Janela Secreta, Jardim Secreto

Ando a ler a novela «Janela Secreta, Jardim Secreta» de Stephen King, que tem as habituais qualidades do escritor quanto à criação de um efeito de atracção no leitor para com as histórias germinadas na sua imaginativa mente.
Desta vez temos um escritor, Mort Rainey, que está a sofrer as passas do Algarve com o seu divórcio de Amy, quando lhe aparece um tipo meio bronco do Mississipi - John Shooter - a acusá-lo de plágio em relação a uma história por si escrita em 1982. Ora, embora esse irritado leitor tivesse conhecido a sua história em 1983 numa antologia envolvendo outras histórias anteriormente espalhadas por diversas revistas, Mort tem a certeza de ter redigido essa história em 1981, pelo que a acusação não tem qualquer fundamento.
Porém, ao adivinhar os propósitos homicidas do seu indignado visitante, Mort decide arranjar as provas susceptíveis de lhe tolher a fundamentação. Só que o seu agente não possui qualquer arquivo do que Mort publicara antes de ser por ele representado. E a casa, que partilhara com Amy em Derry acaba em cinzas ao ser estranhamente incendiada.
A cem páginas do fim começo a suspeitar o agente imobiliária por quem Amy trocara de afectos. De facto esse irritante Ted, além de passar o tempo a cachimbar, tem um indisfarçável sotaque sulista e acaba por confessar ter nascido em … Shooter’s Knob.
Será que, desta feita, acerto no mau da fita?

sábado, junho 27, 2009

Carminho - 'Fadinho Serrano' (Live at Campo Pequeno, Amália no Olympia) Dez. 2008

O texto de Fernando Sobral publicado no «Jornal de Negócios» constitui a melhor apresentação desta cantora de excepção:
«O Fado tem mil janelas e outros tantos espelhos. (…) Carminho aponta para as raízes mais profundas do Fado. Nos temas que canta, serpenteiam memórias antigas, que curiosamente contornam a hegemonia burguesa do Fado que tem sido visível nos últimos anos. Carminho vai mais atrás e sem se assumir herdeira de uma tradição que fazia a ponte entre o mundo popular e aristocrático, acaba por conseguir fazer-nos entender que esses dois mundos são ribeiros nascidos do mesmo rio. (…)
Poucas vozes acariciam o Fado como Carminho. A potência da sua voz alia-se a uma textura de seda, que reforça a importância das palavras. (…) A voz de Carminho sublinha as palavras e insufla-lhes vida própria, porque são elas que transpiram os sentimentos e a voz é apenas a sua mensageira.»

Um incêndio ateado

Sempre que vejo documentários sobre a América Latina recordo inevitavelmente os meses passados a costear os dois lados desse continente e a maravilhar os olhos com alguns dos cenários mais belos de quantos deparei neste planeta. Que foram muitos...
Do Peru, por exemplo, recordo a cidade de Lima em plena efervescência, quando o Sentero Luminoso tinha uma força significativa e alguns dos seus simpatizantes peroravam na praça central da cidade, convertida em speaker’s corner, por onde igualmente se exibiam malabaristas, saltimbancos, contadores de histórias e outros artistas de rua.
Num dos discursos aí ouvidos, que mais singulares me pareceram então, havia um orador a anunciar a Revolução da Poesia, mais eficaz do que a das armas e dos discursos gastos. E quem o ouvia - desde os rostos mais europeus até aos mais marcadamente denunciadores das origens índias - parecia anuir nessa visão surrealista de uma realidade ali feita de belos, mas decrépitos edifícios coloniais, bem demonstrativos de como o passado glorioso era já história registada em livros.
O exemplo mais paradigmático do Peru de então - quando Fujimori estava em vias de ganhar a sua eleição presidencial - foi o aparato de bombeiros a combaterem o incêndio num prédio de vários andares sem que acorressem a presenciá-lo os muitos pares, que na garagem do rés-do-chão, convertida em salão de baile, se iam movimentando ao som dos tangos ou das rumbas.
Esse alheamento perante um desastre ali mesmo bem presente, espelhou-me a idiossincrasia de um povo muito peculiar. Que talvez explique porque Pizarro conseguiu vencer tão facilmente o Império Inca cinco séculos atrás...

quarta-feira, junho 24, 2009

Tristes novas vos trago deste país

«Desgraçadamente, chegámos a um ponto em que qualquer pessoa, por mais inocente que esteja, e em especial se for figura pública, pode ser executada em lume brando na praça pública, num fogo assassino alimentado pela negligência da investigação e pelas sistemáticas violações do segredo de justiça, que permitem a uma imprensa sedenta de sangue e de 'sucessos' atear as labaredas da execução popular».
O texto de Miguel Sousa Tavares já tem umas semanas, mas continua actual no veredicto deste tempo nosso em que os juízes e os magistrados vão contribuindo para dar uma imagem tenebrosa da Justiça e os jornalistas parecem esquecidos das mais básicas regras deontológicas em prol de títulos de primeira página passíveis de aumentarem os volumes de vendas.
À conta de uns e de outros vamos tendo um país cada vez mais inculto e com civismo em défice, que ajuda a explicar como é possível a derrota do Governo de Sócrates nas recentes eleições europeias. Ou de como o Toni Carreira é o cantaroleiro de maior sucesso na parvónia. Para já não falar do inefável timoneiro, que nos arriscamos a ter de suportar à frente da desinspirada Europa dos Berlusconis e dos Brunis.
Que grande barrela estavam uns quantos a precisar nesta altura. A começar pela caricatura, que todas as sextas feiras vai comentando os assuntos da actualidade no pequeno ecrã com uma múmia há muito morta, mas a quem ninguém avisou do seu verdadeiro estado degenerescente…

quinta-feira, junho 18, 2009

«London River» de Rachid Bouchareb

Infelizmente é assim: há filmes de um humanismo comovente - mesmo que muito depurado na forma como explicita as suas emoções - e que não chegam sequer ao mercado português. Há tanta porcaria vinda dos estúdios norte-americanos, que é prontamente esquecida tão-só os seus espectadores saem da sala escura e exemplos destes, passíveis de sugestionarem positivamente um público alargado nem sequer é considerado como oferta possível.
«London River» tem uma história singela: em Julho de 2005, na sequência do atentado terrorista, que desnorteia a capital britânica, duas pessoas de origens muito distintas cruzam-se e acabam por se encontrar nas ruas da cidade.
Elizabeth é uma viúva da guerra das Malvinas, que procura a filha Jane, Ousmane é um velho africano há muito radicado em França, que vem à procura do filho. Um e outro sabem muito pouco sobre o que era o dia-a-dia dos seus rebentos e por isso olham-se com estupefacção ao descobrirem-se muito mais próximos do que julgariam: os jovens viviam juntos e frequentavam as aulas de árabe numa das mesquitas da cidade. Se os pais viviam em caldos de cultura quase antagónicos, os filhos já tinham dado os passos necessários para um encontro de civilizações em que as diferenças passaram a ser motivo de curiosidade, de aproximação.
O tema do filme não tem, pois, a ver com o terrorismo em si: ele funciona como pano de fundo para aquilo que mais interessa a Rachid Bouchareb demonstrar. E o que vemos é uma sociedade ainda atordoada pela dimensão da tragédia, mas em que a solidariedade assume uma dimensão concreta.
Se os dois forasteiros acabarão por sair desalentados da sua episódica visita, porquanto acabam por confirmar os seus piores receios, a experiência tê-lo-á enriquecido pela constatação prática em como, apesar de diferentes serem as suas cores da pele, as suas línguas maternas ou as suas tradições, une-os a mesma preocupação, e nisso são absolutamente iguais.
«London River» permite ainda confirmar o que já se sabia dos seus actores principais: quer Brenda Blethyn, quer Sotigui Kouyaté credibilizam o projecto do realizador sendo perfeitamente verosímeis nos seus desempenhos.

sábado, junho 13, 2009

Sócrates: a irreverente contestação do nosso contexto

A recente publicação em França de um livro dedicado a Buda, a Sócrates e a Jesus Cristo traz a oportunidade de constatar as semelhanças e as diferenças entre três mestres do pensamento ligados a correntes profundas e duradouras de interpretação da relação do Homem com o que o rodeia.
Esse contexto, que é tido como uma ilusão, algo capaz de nos afastar de uma verdade alcançável pelo trabalho interior.
Se em Buda a proposta consiste em alhearmo-nos o mais possível dessa ilusão para alcançar patamares superiores do conhecimento através da meditação, Jesus Cristo surge como paladino da erradicação da violência através da expressão de um amor divino extensível a todos os seres.
Mas dos três é Sócrates quem melhor reage a essa ilusão, questionando-a, pondo em causa todos os seus dogmas. A sua irreverência feita de uma postura assumidamente dubitativa perante todos os poderes acaba por ser a mais exaltante para a minha forma de estar na vida.
Mas não deixa de ser curioso que Frédéric Lenoir, autor do livro editado pela Fayart, faça convergir o pensamento dos três filósofos numa mesma contestação das desigualdades sociais e dos conceitos cristalizados de uma mentalidade balofa. E é esse autor do livro quem se questiona numa entrevista sobre o que pensaria Jesus Cristo do bispo brasileiro que, há uns meses, excomungou uma menina de dez anos por abortar o feto resultante de uma violação de que fora vítima.
Nesse sentido Cristo será o que, dos três protagonistas do livro, mais dúvidas suscita hoje em dia. Porque terá sido adulterada a sua mensagem pelas obsessões dogmáticas, até mesmo inquisitoriais, de muitos dos seus indignos seguidores.

quinta-feira, junho 11, 2009

HOME (Trailer)

As imagens são lindíssimas ou não tenha Yann Arthur Bertrand criado em nós a convicção de depararmos com belíssimos exemplos do que o nosso planeta melhor oferece. Mas o filme recentemente lançado consegue ser mais contundente do que o do Al Gore na criação de uma consciência ecológica com carácter de urgência.

domingo, junho 07, 2009

Le Clézio: «Ritournelle de la Faim»

Foi grande a satisfação pessoal, quando soube da notícia do Nobel atribuído a Le Clézio. Há já muitos anos, que ele constituía uma espécie de segredo bem escondido nas minhas preferências, depois de leituras tão gratas quantas as propiciadas por alguns dos seus mais de quarenta títulos.
Mais do que as viagens em si por locais muito diferentes dos da nossa condição urbanóide, cada página tinha sido a oportunidade para uma cumplicidade efectiva do leitor com os estados interiores revelados pelo autor.
Confesso que o seu último romance, «Ritournelle de la Faim» esteve longe de me propiciar idêntica magia, mas não deixa de constituir um bom exemplo de como dentro da História das guerras declaradas ou latentes, subsistem dramas muito mais eloquentes protagonizados pelos seus figurantes.
Comparados aos Hitlers, aos Churchills ou aos Estalines, esta descrição das tremendas vicissitudes por que passa Ethel desde a puberdade até à plena assumpção da sua condição de mulher adulta, é muito mais interessante. E mostra uma vontade indómita de sobreviver e encontrar a felicidade possível.
Como não nos identificarmos, então, com uma personagem, que sabe nada poder influir no curso do que se passa à sua volta, mas não deixa de esbracejar para não ser arrastada para o vórtice para onde são empurrados os mais frágeis?
A tal luz, o livro faz todo o sentido no âmbito da bibliografia do autor!

A decepção de uma noite eleitoral

O resultado das eleições europeias causa-me óbvia decepção. A derrota do Partido Socialista face a uma oposição de direita, que nunca apresentou vias alternativas consistentes, e embotada em valores mais consonantes com o milénio passado do que com os deste, representa um retrocesso evidente em relação a uma dinâmica de progresso.
Essa mesma constatação também se verifica a nível europeu aonde saem premiados os partidos defensores de um tipo de capitalismo, que a crise presente tende a denunciar como ineficiente na capacidade para criar riqueza e maior justiça social.
Paulo Rangel congratulou-se com a vitória simultânea do Sarkozy, da Merkel e até dessa coisa viscosa chamada Berlusconi. Ao reivindicar tão eloquente companhia define-se naquilo que é: um defensor do que de mais aberrante persiste em existir nesta Europa a que a crise está a conferir muito escassa lucidez.
Perante a dimensão da catástrofe - expressa em desemprego massivo e muito forte contracção da economia - esperar-se-ia uma forte penalização de quem esteve com Bush na agressão criminosa ao Iraque e, anos a fio, a incensar as virtudes do mercado desregulado.
Decidiram os eleitores europeus o contrário: quem mais tem procurado limitar os estragos de tais estratégias é que sai penalizado, com a conivência de uma certa esquerda radical para quem a satisfação maior reside na derrota dos socialistas, mesmo que à custa da vitória da direita mais troglodita.
A esquerda europeia bem precisa de repensar-se sob pena de abrir caminho a derrotas bem mais gravosas.

sexta-feira, junho 05, 2009

«A GRANDE VIAGEM DE CHARLES DARWIN»

Documentário de Hannes Schuller et Katharina von Flotow (2009, 1h30m)


Ainda que a Exposição da Gulbenkian já tenha fechado as suas portas, ainda estamos em época apropriada para continuarmos a abordar a importância do naturalista Charles Darwin na evolução do pensamento humano.
O documentário, que o Canal Arte se prepara para emitir (dia 6de Junho, pelas 19h45) irá seguir o percurso do cientista desde a descoberta de situações, que lhe aguçam a curiosidade até o ver formular a sua notável teoria.
Começamos em 1831, quando ele conta 22 anos e acaba de se formar em Cambridge. Os seus planos passam por se tornar pastor anglicano cumprindo os desejos paternos, mas depressa eles dão lugar a um projecto bem mais aliciante, que será embarcar por cinco anos no navio «Beagle», comandado pelo capitão Fitzroy, pronto para zarpar para os mares da América do Sul com o objectivo de cartografar tal subcontinente.
Logo na primeira escala, em Cabo Verde, ele descobre mais de cem espécies diferentes. E as suas descobertas não param nos espaços subsequentes: as ilhas Cocos, um atol do Pacífico, a Terra do Fogo, as Galápagos, o Chile, a Austrália…
Em todos esses locais, o jovem Darwin explora, recolhe amostras e analisa. E tais amostras são depois enviadas regularmente para Inglaterra, sejam elas vegetais e animais, hoje considerados tesouros científicos da Coroa.
É esse imenso livro de uma natureza desconhecida e sempre em mudança, que lhe dão a intuir as verdades insuspeitáveis para o seu tempo: ao contrário do que diz a Igreja, o mundo não fora criado quatro mil anos antes de J.C., mas resultara de uma longa evolução ao longo de milhões de anos.
Os suficientes para que os Oceanos se redesenhassem e os vulcões se extinguissem.
E como explicar que os tentilhões das Galápagos tenham características tão diferentes dos das suas ilhas vizinhas?
No seu diário ele escreve: « Não encontro qualquer limite para o número de alterações à beleza e à infinita complexidade das adaptações dos seres vivos uns com os outros, ligados às suas condições de vida e de acordo com o poder da selecção natural.»
Ao regressar a Inglaterra e retirado na sua propriedade no campo, Charles Darwin levará vinte e três anos a consolidar a sua vertiginosa tese concebida a bordo do Beagle.
Afirmar que as espécies não são imiutáveis não equivalerá a «confessar um crime»?
Alternando cenas reconstituídas com entrevistas aos seus biógrafos e sequências com iminentes biólogos e geólogos rodadas nos portos de escala do Beagle, o documentário conta uma das mais belas aventuras científicas da história do pensamento.

terça-feira, junho 02, 2009

UMA VOTAÇÃO PARA LAMENTAR

O que se passou na semana transacta com a votação (para lamentar) dos candidatos ao cargo de Provedor da Justiça é elucidativo sobre a arrogância do maior partido da oposição, que transformou um acto normal em democracia numa demonstração aguda de partidarite.
Como lhe competia, o Governo procurou encontrar um candidato consensual, que inviabilizaria à partida as desconfianças dos mais temerosos dos seus opositores. O Dr. Jorge de Miranda, pela sua condição de senador da Nação, co-autor do nosso texto constitucional e devotado servidor da causa pública, parecia ser um nome incontornável para garantir um quase unânime aplauso.
O que se viu a seguir foi uma das reacções mais grotescas de politiquice no seu nível mais baixo, com a oposição ao não ter em atenção a figura prestigiada em causa, mas a metodologia seguida para o candidatar.
Argumentou o PSD, que existiria uma norma consuetudinária, que lhe daria a legitimidade para indicar um nome do seu agrado. Tanto mais que os mais recentes titulares da função têm emergido da sua força política. E deixaram-se levar os demais partidos oposicionistas por idêntica estratégia de bota-abaixo quando, pela primeira vez em muitos anos, estavam criadas as condições para a eleição de uma personalidade apartidária e verdadeiramente autónoma do jogo político.
Tudo quanto se seguiu, culminando com a frustrada possibilidade de tal cargo vir a ser ocupado pelo Dr. Jorge Miranda só desabona quem preferiu a chicana política a uma concertação ditada pelo interesse dos cidadãos.
Razão tem, a esse respeito, Correia de Campos quando, numa crónica do «Diário Económico» comenta: «Forte é o líder que sabe ceder; fraco é o que se agarra ao quinhão, com o desespero dos minoritários. Demonstrou que é assim que pretende continuar.»E este fraco é, obviamente, Paulo Rangel…

domingo, maio 24, 2009

Maupassant e a Torre Eiffel

A história é engraçada e merece ser aqui referenciada.
Há cento e vinte anos, quando foi inaugurada no âmbito de uma Exposição Universal a que não deveria sobreviver, a Torre Eiffel foi objecto de grandes ódios por parte da intelectualidade parisiense de então. O caso mais emblemático era o de Guy de Maupassant que preferia jantar do restaurante do 1º piso da Torre por ser o único local da cidade donde a sua refeição não poderia ser prejudicada pela sua visão.
Afinal a criação de Gustave Eiffel perduraria todos estes anos e tornar-se-ia num ícone sem a qual a cidade das luzes não poderá passar.

Arturo Toscanini

São muitas as histórias curiosas que Arturo Toscanini suscitou ao longo da sua longa carreira de maestro. Ainda hoje há quem aposte ter sido ele o mais genial de todos quantos pegaram numa batuta em frente a uma orquestra. É claro que a História da Música conta com outros grandes vultos responsáveis por interpretações superlativas de obras musicais já de si sublimes, sendo fútil discutir quem delas conseguiu o patamar da excelência.
O que vale é registar alguns dos momentos, que deram a Arturo Toscanini uma dimensão lendária.
Tudo começou aos 19 anos, quando ainda era violoncelista de uma orquestra italiana em digressão pelo Brasil e deparou com a incapacidade do maestro em dirigir convenientemente a «Aida» de Verdi.
O arrojo com que passou para a liderança da orquestra e dela obteve interpretação memorável sem recurso a pauta, projectou-o desde logo como um talento precoce.
Depois, seguiu-se uma carreira sempre de consagração, em que ia introduzindo inovações (a orquestra no fosso do Scala, o apagamento das luzes da sala enquanto a orquestra actuava, etc.) e se ia deixando seduzir por espaços de eleição.
Bayreuth, por exemplo, ainda se sentia imbuído da ambiência celestial da música do seu idolatrado Wagner. Terá sido a descoberta da obra do grande compositor alemão, a inibi-lo da ambição de chegar à composição: depois da majestosidade da música do autor de Lohengrin, o que poderia surgir da sua própria lavra só seria medíocre. Ou também Salzburgo aonde Mozart continuaria omnipresente.
Mas, a partir dos anos 40, nem um nem outro desses sítios lhe estão acessíveis: antifascista por natureza (apesar de ter sido correligionário de Mussolini antes deste se ter virado para a extrema-direita), Toscanini acaba por se revelar contra as ditaduras ao dirigir aquele que irá ser o embrião da futura Orquestra de Telavive.
Mas não era só a política a suscitar reacções firmes por parte do maestro: ele não deixará de vituperar Stokowski como um incompetente capaz de estragar o prazer de ouvir as melhores composições e Puccini representará para ele o paradigma do plagiador.
Polémica, igualmente, a sua opinião sobre os concertos: «a música não é feita para ver, mas para ouvir».
É ela a possibilitar o raro acesso à sensação de sublime, que amiúde o consegue levar às lágrimas…

segunda-feira, maio 18, 2009

Norberto Lobo - Ayrton Senna

Há tanta gente na música aqui produzida, que nunca chega ao conhecimento da maioria dos portugueses. A de Norberto Lobo é só um exemplo. Na sua interpretação de temas, que se associam a sons lusófonos, existe uma óbvia mestria no deidlhar da sua viola...

sexta-feira, maio 01, 2009

Patricia Kaas - Elle voulait jouer cabaret

Alguns anos de silêncio não desalojaram Patrícia Kaas da sua condição de cantora mais importante da música francesa actual.
O seu novo espectáculo, ligado ao seu mais recente álbum acabado de editar, chama-se «Kabaret» e constitui uma verdadeira viagem no tempo até esses anos 30 em que a moda de Coco Chanel, a androgenia de Greta Garbo ou o erotismo de Anais Nin marcavam uma certa forma de feminino em breve amordaçado pelo advento das ditaduras fascistas.
Nessa abordagem da atmosfera musical de Kurt Weil e Bertold Brecht, Patrícia assume-se como mulher fatal com um pé no vanguardismo da época e o outro na decadência de que seria igualmente caracterizada.
Mas a cantora não deixa de aqui proceder a um verdadeiro monólogo interior pelo qual é o próprio sentido da vida a estar em causa.
Um bom exemplo disso mesmo é a canção mais pessoal do disco, na qual a cantora lembra a sua mãe, precocemente desaparecida!
Embora quase desconhecida entre nós, Patrícia Kaas merece ser ouvida como exemplo representativo de uma cultura europeia cada vez mais distante dos circuitos de distribuição, que aqui chegam.

O exemplo vem do Oriente

No «Jornal de Negócios» de ontem vem um texto assaz elucidativo do Fernando Sobral sobre as razões da progressiva ascensão dos países emergentes orientais em relação ao Ocidente pegando no caso de Susan Boyle, a feia desempregada escocesa, que foi vista por milhões de frequentadores do You Tube depois de aparecer num programa inglês de caça talentos.
É claro que ela corresponde ao padrão consumista ocidental em que as modas aparecem e desaparecem quase sem deixarem rasto. Por certo daqui a uns meses já ninguém se lembrará da hoje mediática figura, que serviu para interessar (alienar) milhões de pessoas, por momentos iludidas na possibilidade de qualquer um, por mais improvável que pareça, aceder à fama.
Em paralelo com isso, o jornalista refere o exemplo coreano aonde existem milhares de cantores distribuídos por companhias de ópera das diferentes províncias do país. Ou o de 60 milhões de crianças chinesas a aprenderem música clássica ocidental, praticando-a regularmente com mestres atentos e rígidos.
Conclusão de tão interessante texto:
«Há uma diferença cultural gritante: enquanto os ocidentais se identificam com os que são como eles (num nivelamento por baixo), os orientais procuram ser tão bons como os que estão acima deles. Na China os jovens aprendem a tocar piano ou instrumentos de corda porque os seus pais sabem que isso os tornará mais fortes nas universidades, dando-lhes uma formação (para além de concentração, disciplina e regras) superior.»
Compreende-se assim que, mesmo nas escolas portuguesas, as crianças de origem ucraniana ou chinesa acabam por ser melhores estudantes que as demais de origem portuguesa.