terça-feira, fevereiro 23, 2016

SONS: «A Criação» de Haydn, dirigida por Trevor Pinock

Haydn compôs «A Criação» entre 1796 e 1798, depois de ficar impressionado com a apresentação de uma oratória de Häendel na Abadia de Westminster.
Apostado em conquistar simultaneamente o público londrino e vienense, criou uma obra ambiciosa destinada a ser interpretada por um coro numeroso aliado a uma música capaz de sugestionar positivamente uma grande plateia de espectadores.
Havendo várias a versões da peça, a alemã revela-se claramente superior à de língua inglesa.



segunda-feira, fevereiro 22, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: A consagração de Leonor Teles em Berlim

Se o Festival de Berlim não tivesse consagrado Leonor Teles com o Prémio da melhor Curta-Metragem tornando-a na mais jovem vencedora alguma vez acontecida nesse certame e desconhecia completamente essa prova de racismo, que leva muitos comerciantes lusos a põr sapos nas montras para impedir a entrada de ciganos nas suas lojas.
O filme dura onze anos, quem o viu diz tratar-se de algo de inesperado e muito divertido. Esperemos que, muito em breve, ele se torne acessível à nossa curiosidade cinéfila. E conclui-se, uma vez mais, quanto talento se está a revelar na juventude portuguesa, apesar de todas as dificuldades a ela impostas para que seja feliz...



DIÁRIO DE LEITURAS: Na evocação de Umberto Eco

Há muito que considero como livros da minha vida, aqueles que levaria para a tal ilha desértica, o «Memorial do Convento», «Os Cem Anos de Solidão» e «Confesso que Vivi». Saramago, Garcia Marquez e Neruda estão, de facto, no topo dos escritores que mais admiro, não só pelo talento superlativo, mas também pelo posicionamento ideológico progressista.
Mas o livro que maior gozo me deu, até por o ler em situações excecionais, foi «O Nome da Rosa» de Umberto Eco. Foi em 1979, quando desempenhava funções de 2º Oficial no superpetroleiro «Neiva» e vivia uma inesquecível viagem entre a Grécia e o Golfo Pérsico, Atlântico abaixo e Índico acima.
Inesquecível pelas pessoas, já que integrava uma tripulação de excelência. Havia o Comandante Mesquita, sempre simpático e suficientemente pragmático para ter mandado vir, a meu pedido, uma caixa de líchias em Capetown, fruto que teve tão pouco sucesso a bordo que, gulosamente, eu, ele e o 1º Oficial de Máquinas, o Antonino, demos conta delas dando graças a que os outros as qualificassem de todos os defeitos. Esse mesmo Antonino, que convivera com o grupo dos revoltosos de 1961, que tinham falhado o ataque ao quartel de Beja, e tinha uma filosofia de vida com que sentia enormes afinidades.
Infelizmente, um de morte súbita durante uma reparação na Lisnave de Cacilhas e o outro, em estado vegetativo durante muitos anos, após um ataque cardíaco, tiveram desenlaces trágicos pouco tempo depois.
Havia, igualmente, o Chefe Ramos dos Santos, fumador tão inveterado, que, eu próprio, por inconsciente mimetismo,  queimei cigarros nessa época como nunca mais se repetiria.
Mas a viagem seria particularmente tormentosa pelas frequentes paragens para ir reparando o tubular da Caldeira Principal, que obrigaria a demorada reparação no Barhain ao chegar ao Golfo.
Foi, nesse contexto, que fui lendo dois livros, definitivamente associados a tais vivências: «O Diabo e o Bom Deus» de Sartre e «O Nome da Rosa».
Por norma trabalhava entre as quatro da manhã e o meio dia, dormia uma sesta depois de almoço e às três ia para a piscina, tomava um banho e ficava ali a ler meia hora antes de regressar à Casa das Máquinas às quatro da tarde.
Foi, pois, com o Sol no zénite, a brisa marítima a aflorar-me a pele e o relativo silêncio de uma instalação a turbinas ouvida do convés superior, que fui acompanhando as vicissitudes de Guilherme de Baskerville e do noviço Adso na abadia beneditina situada algures entre a Provença e a Ligúria.
Só veria o filme anos depois, mas a escrita de Eco revelou-se tão impressiva, que as imagens depois criadas por Jean Jacques Annaud surgiram prenunciadas na minha própria mente.
Chegado a meio do livro, e com a sucessão de crimes a aumentar, tive de, durante algumas noites, restringir o tempo de convívio no salão depois do jantar para rapidamente regressar ao camarote e devorar mais umas quantas páginas.
Se esse era um tempo em que as inquietações políticas com a realidade portuguesa ainda estavam bem vivas - a AD de Sá Carneiro preparava-se para virar significativamente o rumo da política pós-Abril - o romance permitiu fazer um parêntesis de exclusivo entretenimento no debate permanente com quem pensava de forma diferente (quão vivas eram então as discussões às refeições!).
Na morte de Eco agradeço-lhe vivamente os excelentes momentos que me proporcionou como leitor. E não posso deixar de acrescentar a afinidade complementar de ambos termos no 2º andamento da 7ª Sinfonia de Beethoven - o Adagietto - um dos temas musicais mais prezados. A seu respeito, confessou que, um dia, em Turim, quando só conseguiu assistir a um concerto em lugar donde não via a orquestra, chegou a chorar, quando a ouviu interpretar esses oito minutos de magia e se sentiu em estado de graça.

SONS: o Adagietto da 7ª Sinfonia de Beethoven

sábado, fevereiro 20, 2016

LEITURAS AVULSAS: Shostakovich segundo Julian Barnes

No mês passado chegou às livrarias inglesas o mais recente romance de Julian Barnes que, desde a descoberta de «O Papagaio de Flaubert», passou a ser o meu escritor preferido de quantos publicam no reino de sua majestade. Em «The Noise of Time» Barnes imagina o diálogo interior do compositor russo Shostakovich que equaciona as suas fraquezas de carácter e o relacionamento problemático com o regime estalinista.
Três datas separadas em ciclos de doze anos, e todas elas em anos bissextos, revelam-se fundamentais nessa introspeção irónica: 1936, 1948, 1960. Em 1936 Shostakovich vê a sua ópera «Lady Macbeth de Mtsensk» condenada pelo regime, quando estava a iniciar-se uma purga, que abrangeria muitos dos intelectuais de então, alguns dos quais amigos do compositor. Ele próprio chega a preparar uma mala para levar para o goulag alguns objetos de primeira necessidade. Em 1948 é convocado para uma espécie de processo disciplinar na União dos Compositores, presidido pelo temível Jdanov, e vive ainda maior humilhação durante uma viagem à América em que Stravinsky, acabado de aí se naturalizar, o confronta com a sua condição de representante de um regime diabolizado pelo macarthismo crescente. Em 1960 adere ao Partido Comunista, já com Khrushchev como sucessor de Estaline, e em que não sente a esperada adulação de amigos e admiradores. Barnes não apresenta Shostakovich como um herói, pois prefere a evasão como reação habitual perante as contrariedades. E é um homem sobre quem as mulheres têm um enorme ascendente. Primeiro a mãe, de forte personalidade, e depois a esposa cientista, Nita, com quem consensualiza uma relação conjugal aberta. Será numa viagem com o amante pela Arménia que ela adoce subitamente e morre em 1954. Nos anos que se seguirão ele confessa a perturbação causada por, sempre que visitava o túmulo dela, o encontrar adornado por flores, que não fora ele a encomendar, O que o leva a admirar esse rival, que soubera amar e ser amado por ela. As únicas alturas em que se confessa com orgulho bastante para se sentir confiante no regresso a casa é nas noites de concertos bem sucedidos em que ecoam nele as palmas do público. O Dimitri de Barnes só revela verdadeira confiança na música, que cria. E, mesmo assim, não enfrenta frontalmente quem lhe sugere alterações ao que compusera: propõe-se fazer essa mudança na próxima vez e nunca o faz. Ao longo de todo o livro sente-se que ele é o típico intelectual russo do regime ao qual imputa o perigo de lhe ameaçar a individualidade, meditando sobre tais intenções e acabando por satiriza-lo quanto ao seu estilo. Em vez de pretender assumir-se como herói num qualquer episódio, que depressa o aniquilaria, Shostakovich só pode ser um cobarde pertinaz, o que ele sente como um certo tipo de coragem. E para quem a música constituiu uma forma de abafar o ruído do tempo e valer por ela mesma.

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

DIÁRIO DE LEITURAS: Os livros que tenho à cabeceira

Embora situados em passados diferentes, dois dos romances que me andam a atrair a atenção de leitor voraz, remetem necessariamente para a atualidade. Mas os outros três não deixam de encontrar pontes para este presente onde é fácil encontrar-lhes pertinentes sintonias.
«Nada de Lágrimas» de Lydie Salvayre, sobre o qual já deixei aqui algumas impressões, está lido a arrumado na prateleira, mas teve nas páginas derradeiras uma sequência similar á realidade atual: com as tropas franquistas a avançarem progressivamente no território republicano, Montse e a filha Lunita fogem penosamente na direção da fronteira francesa para não se sujeitarem às represálias dos iminentes vencedores. Até muito depois da sua tomada de posse como caudillo, Franco autorizou aos seus sicários as piores afrontas contra os vencidos: execuções sumárias, torturas, violações, etc., que tanto tinham escandalizado o fervoroso católico Georges Bernanos, autor de «Os Cemitérios ao Luar», pormenorizada descrição dos crimes fascistas em Maiorca.
A fuga figura, pois, como única alternativa a quem se quer livrar de dores maiores do que as do frio, da lama, do cansaço, que se associam a essa marcha para a imprevisível salvação. Afinal aquilo que sentem muitas famílias sírias em trânsito para uma Europa, que não as quer receber…
Mudando de época e de geografia, estou a ser levado por Christian Jacq para o Egito de há mais de 3700 anos, com o romance «A Árvore da Vida», que tem por personagem relevante o faraó Sesóstris II a contas com a sensação de fragilidade na unidade territorial do seu reino pela irrupção de uma insurreição liderada por um fanático religiosos sem escrúpulos.
Muito embora o autor procure ser o mais detalhado possível em relação ao que conjetura serem os comportamentos e os valores de então, é óbvia a piscadela de olho para uma atualidade marcada por intolerâncias religiosas e subsequentes atos terroristas. É a História como reflexo incontornável do que vamos vivendo nos dias de hoje.
Mudando de continente e de época, encontro a protagonista de «Amuleto» de Roberto Bolaño a privar com os poetas Leon Filipe e Pedro Garfias na Cidade do México nos finais dos anos 60. Chama-se Auxílio Lacouture e saíra de Montevideu, onde nascera, para encontrar o verdadeiro sítio onde deseja pertencer e que, mais não é do que o convívio com poetas exilados de quem se torna voluntária mulher-a-dias.
Porque ainda avancei uma vintena de páginas, desconheço o que me revelarão as seguintes, mas o autor abrindo as expetativas para crimes e histórias de terror até agora insuspeitáveis…
Vou mais adiantado na leitura de «L’Ombre des chats», um romance do islandês Arni Thorarinsson.
Aparentemente é um policial, que se inicia com a presença de um jornalista de Reiquiavique no casamento de duas das suas amigas em Akureyri e vê-as receber como prenda um aparente pénis metido num frasco de formol. Tratar-se-ia de uma provocação homofóbica? Einar irá tentar descobri-lo, mesmo se depressa conclui tratar-se de um falso órgão em matéria plástica mergulhada num néctar de fruta. Por agora ando ainda a tentar perceber o que tal provocação terá a ver com agressões gratuitas em filas para entradas em discotecas na capital ou com a fuga de uma ex-amante e do tesoureiro de um partido político com o dinheiro, dele desfalcado.
Para concluir esta breve viagem pelos títulos agora acumulados na mesa de cabeceira, falta-me referir a continuação na leitura de «As Mãos Escondidas» de Robert Wilson com o inspetor Javier Falcón ainda por perceber se a morte do casal Vega teve na origem um pacto suicida se um homicídio muito bem disfarçado. Mas com os problemas do protagonista a imiscuírem-se numa investigação tanto mais difícil quanto Sevilha consegue ser insuportável no pico do verão.
Convenhamos que ando com leituras pouco exigentes literariamente, mas onde conta a imaginação dos autores para conferirem credibilidade às histórias neles exploradas.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: A relação de Ferré com Satã e com a Morte

A comemoração do centenário do nascimento de Léo Ferré continua-nos a trazer novas facetas sobre a sua vida e obra: no documentário «La Mémoire des Étoiles» ficamos a saber dos abusos sexuais a que terá sido submetido no internato religioso onde a mãe o matriculou em criança e razão mais do que justificada para o seu ódio às sotainas. Mas a relação com Satã é por ele explicada em entrevistas inseridas no filme de Franz Vaillant, elucidativas também quanto ao seu carácter efabulatório.
Numa delas, Ferré conta que, em 1956, aconteceu-lhe passear com André Breton nos Campos Elíseos, quando deu com um homem de chapéu a olhá-lo fixamente na esquina com a Rua Washington.
Num dos dias seguintes apareceu na televisão e, logo reencontrou o mesmo homem a interpelá-lo pelo nome e a convidá-lo a subir ao seu apartamento para ver algo que muito o interessaria.
Embora a televisão estivesse então nos seus primórdios, o homem misterioso mostrou-lhe a ampla parede de um enorme salão coberta com pequenos ecrãs cheios de imagens em movimento, que poderiam ser individualmente selecionadas para um de maior dimensões que estava no centro desse desfile de espantosa tecnologia.
O anfitrião escolheu um dos pequenos ecrãs e ampliou a imagem para o que possibilitava uma compreensão mais adequada do seu conteúdo. O que Ferré viu estarreceu-o: um terrível desastre numa autoestrada com carros destruídos, corpos estropiados e muito sangue derramado no asfalto. Mas o que logo cativou a atenção do escritor foi o rosto de uma mulher a olhar para tudo aquilo num canto do ecrã.
- Foi a mais bela mulher que jamais vi na minha vida! - confessa para a câmara.
Mas foi a resposta do interlocutor a esclarecê-lo quanto à sua identidade:
- Trata-se da minha única rival: é a Morte!
Fica assim encontrada a chave para uma melhor compreensão das canções em que Ferré interpelava ou falava de Satã.
Noutra entrevista, mais tardia e efetuada na quinta italiana onde passou os seus últimos anos de vida, Ferré conta outra experiência do mesmo tipo, quando estava em casa sozinho com a mulher-a-dias e o telefone tocou.
Do outro lado do aparelho ouviu uma voz incrivelmente sedutora de mulher que se apresentou:
- Sou a Morte! - e logo desligou.
É evidente que estas estórias valem o que valem, mas enquadram-nos no imaginário de um homem genial, com uma enorme paixão pela melhor poesia francesa, que musicou (Aragon, Verlaine, Rimbaud, etc) e sempre se considerou um anarquista consciente das suas contradições. Ademais, um compositor de temas lindíssimos, que atingiria porventura estados superiores de criatividade se as circunstâncias tivessem-lhe propiciado uma derivação mais confortável para a música erudita em vez da chanson onde teve de encontrar sustento para si e para a família.
O documentário de Vaillant ainda aborda a enorme tragédia em que se concluiu o segundo casamento, quando a rutura significou a morte de todos os animais com que mantinha particular afeto na sua quinta provençal. Nomeadamente o chimpanzé Pépée, que quase estimava como se de um filho seu se tratasse.
Daí que mais do que o quanto tudo se esvai com a passagem do tempo («Avec le temps tout s’en va!») ele tenha sido o autor de um dos textos mais apocalíticos de quantos foram cantados na língua francesa: «Il n’ya plus rien!»

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Léo Ferré, la mémoire des étoiles» de Franz Vaillant

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: A música como um sonho

Fascinante a personalidade de Alice Sommer, tal qual a descobrimos no documentário «The Lady in number 6» de Malcolm Clarke.
O documentário começa com a ilustração de uma rua pacata do norte de Londres onde, amiúde, as pessoas paravam em frente a uma residência donde provinha o som de grandes peças para piano, interpretadas com inegável competência.
Em 2012, quando foi rodado, Alice tinha 109 anos e era a mais idosa sobrevivente dos campos de concentração nazis. Com a precisão de um relógio de cuco, iniciava os exercícios musicais às dez em ponto, porque sempre considerou inalienável a associação do talento natural e do trabalho para o potenciar. Até ao fim - que ocorreria em 2014 - nunca quis deixar de fazer jorrar dos seus dedos a beleza inerente às composições de Bach, Beethoven, Schubert, Brahms, Schumann ou Chopin.
Nascida em Praga numa família judaica onde se dava grande importância à cultura - Mahler ou Kafka integravam o círculo de amigos dos pais - a própria Alice começou cedo a dar sinais de vir a dedicar a vida à expressão artística mais próxima da essência divina.
Já a guerra se colocava como ameaça, quando casou com um violoncelista talentoso de quem teve o filho, Raphäel que, aos três anos, a surpreendera a chorar por achar tão bela a música que estava a ouvir.
Não o adivinhava, mas estava então a viver a época mais feliz da sua longa vida.
A ocupação da Checoslováquia pelos nazis logo lhe trouxe a perceção do terror, que viria a testemunhar: uma das primeiras consequências foi a obrigação do pai em “vender” o negócio familiar, logo seguida da proibição da utilização do piano, porque a música estava vedada aos judeus. Mas foi esse talento, que a direcionou para Theresienstadt e não diretamente para Auschwitz, porque os nazis necessitavam de exibir aí a “prova” em como os judeus eram bem tratados.
A orquestra, que Alice então integrou, foi amiúde revelada como fachada propagandística do regime hitleriano para esconder a máquina de extermínio então em funcionamento.
Foi a possibilidade de se reencontrar com a música, que salvou Alice, mesmo depois transferida para Bergen-Belsen, onde foi libertada. Porque, mesmo nos dias de maior desespero procurava encontrar dentro de si algum motivo para manter viva a esperança de salvação.
No documentário Malcolm Clarke entrevista outras duas sobreviventes do Holocausto, mais versáteis em explicarem o que foi a realidade desse horror.
Alice terá superado todas essas experiências ao cultivar a capacidade para preservar a música bem viva dentro de si. E que de bom grado elenca para a câmara de Clarke com os dedos artríticos a ainda dominarem os teclados.
O filho, Raphäel, também sobrevivera à experiência, acompanhando-a nesses anos de privações e medos. Sem pai - que se contaria entre os seis milhões de mortos judeus! - imitá-lo-ia no instrumento de eleição tornando-se concertista até aos 64 anos, quando subitamente morreu. Num clip do Youtube podemos vê-lo a interpretar um belo tema de Rachmaninov.
O que mais impressiona em Alice é a alegria intacta depois de tantos sofrimentos e a explicação está na fruição ininterrupta da música enquanto melhor demonstração do que é o Belo.


DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «The Lady in number six» de Malcolm Clarke

ESTÓRIAS DA HISTÓRIA: Evocar Hughes Lamennais

Praticamente esquecido, Hugues Lamennais é um escritor relevante do século XIX francês pela sua visão muito pessoal do cristianismo, que lhe valeu sérios aborrecimentos com o Vaticano.
Em 1832 o papa Gregório XVI já o condenara devido às posições subscritas no jornal «L’Avenir», que fundara dois anos antes com os seus amigos Lacordaire e Montalambert. O pior viria, porém, depois, quando entrou em rutura com tais cúmplices e se retirou para a sua propriedade em Dinan onde, em poucos dias, escreveu uma violenta crítica ao clericalismo.
Apocalítico, violento, escaldante, «Paroles d’un croyant» adota o tom bíblico dos Salmos do Antigo Testamento para reivindicar o direito à Liberdade, a todas as Liberdades: a política, a de consciência, a da igualdade entre os homens.
Lamennais denuncia a evidência de, ao longo da História, os fracos sempre terem sido enganados pelos poderosos e as nacionalidades pelos tiranos. Por isso apela à revolta apaixonada contra o Estado e contra a Igreja, ambos conluiados para melhor oprimirem os fracos.
Só a fraternidade entre os homens poderia redimi-los e essa seria para ele a verdadeira e esquecida fé cristã. Aquela que fora corrompida por quantos só se tinham preocupado com os seus interesses particulares.
Nesse sentido Lamennais pode integrar-se no exíguo número de precursor dos ideais democratas-cristãos, se não mesmo socialistas.
Escrito em prosa, mas dividido em versetos, o livro aborda a solidariedade no capítulo VII (“quando uma árvore está sozinha, é sacudida pelos ventos”), a pobreza no IX, a angústia e a miséria humanas no XVIII e, o particular mente belo trecho sobre o exílio no XLI.
Entendido como um dos discípulos de Chateaubriand, Lamennais conheceria com este livro, publicado em 1834, um enorme sucesso editorial, apesar da reação furibunda da Igreja.
Catorze anos depois, pouco antes de morrer, Lamennais ainda desempenharia cargos públicos na sequência da efémera Revolução de 1848, que terá sido a última tentativa por ele vivida de criar uma sociedade mais conforme com os seus ideais.

LEITURAS AVULSAS: «La Figurante» de Avraham B. Yehuoshua

Até o ver hoje como convidado especial de Elizabeth Quin no seu programa diário nunca ouvira falar do escritor israelita Avraham B. Yehoshua.
Porque quero acreditar numa solução para o Médio Oriente, que vá além da solução de dois Estados, para que passe pela criação de um grande Estado binacional, democrático e inteiramente laico, onde a convivência entre os vários credos monoteístas possam coexistir pacificamente com os cada vez mais representativos ateus, predispus-me a conhecê-lo enquanto defensor dessa ambiciosa solução e até pelo carácter revelador da sua biografia: não só foi durante muitos anos o principal editorialista do Haaretz (o grande jornal da esquerda israelita) como esteve envolvido nas negociações de paz, que culminaram no finado Acordo de Camp David.
Nascido em Jerusalém, quando eram os britânicos quem colonizavam aquele território, participou nas guerras do Sinai e na dos Seis Dias. Desde então dedicou-se à escrita com a publicação de sucessivos romances sobre a Comédia Humana identificada no seu país, o que lhe valeu a comparação com Honoré de Balzac.
Em França ganhara particular reputação com «Rétrospective», o romance galardoado com o Prémio Médicis em 2012.
Agora a Grasset publica-lhe o mais recente romance - «La Figurante» - onde ele assume não ter grandes preocupações ideológicas, porquanto ter-se-á sobretudo preocupado em contar bem uma história. Mas, logo pelo que dela sabemos através do site da editora, dificilmente escaparemos aos reflexos óbvios da atual conjuntura percecionada em Jerusalém.
Noga, a protagonista do romance, está radicada em Arnehim, na Holanda, em cuja orquestra municipal é harpista.
Está em vias de conhecer o seu momento de consagração ao interpretar como solista o Concerto para Flauta e Harpa de Mozart, quando recebe um pedido de ajuda do irmão, Honi, que vive em Jerusalém:  o velho apartamento da família está em vias de ser exigido pelos proprietários, que pretendiam aproveitar a ausência da mãe, entretanto internada numa casa de repouso em Telavive.
Reocupando a casa onde nascera, Noga vai trabalhando como figurante em papéis propiciados pelo irmão ao mesmo tempo que retoma ligação com o país e com os compatriotas, quase esquecida durante o seu confortável exílio holandês.
Descobre assim um bairro transformado pelos judeus ortodoxos, reencontra um vizinho, trava conhecimento com Eléazar que se reformara de inspetor da polícia e faz figuração em filmes da produção local
E eis que, do passado, ressurge Ourya, com quem ela estivera casada...

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «A Quiet Passion» de Terence Davies

Um dos mais sérios debates literários do século XX português ocorreu em 1952, quando a expulsão de Mário Dionísio do PCP foi o corolário lógico de uma polémica em que o escritor punha em causa a necessidade de se cingir a criatividade artística à regra de contribuir ou não para a emancipação da classe operária.
A questão torna-se mais lata, quando pensamos se faz algum sentido a expressão «a arte pela arte» com que muitos intelectuais se desculpabilizaram ao dissociarem-se da militância cidadã para se enclausurarem nos respetivos casulos criativos.

O filme de Terence Davies sobre a escritora romântica Emily Dickinson  reatualiza essa questão: justificar-se-á que nos deixemos sensibilizar pela beleza da natureza, quando a consciência social nos dita a existência concomitante de tanta miséria humana causada pela exploração do homem pelo homem?
Justifica-se essa rendição ao Belo como consolação de todas as inquietações inerentes aos tumultos suscitados pelas injustiças que nos merecem veementes indignações?
A minha resposta é sim, se soubermos segmentar essa capacidade de deslumbramento perante o que nos impõe um estado encantatório, da que não deixaremos de sentir, quando nos cruzamos com tantos sem abrigo pela cidade. É por isso que o filme agora estreado em Berlim figurará nos de visão obrigatória, porquanto permitirá uma trégua de duas horas no permanente desassossego que nos estimula a vontade de mudar o mundo à luz das nossas pessoais utopias. Rendendo-nos momentaneamente à beleza dos versos da poetisa ...

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Dois filmes de Patricio Guzman

Desde que assumiu a identidade de «Ideal Paraíso», o antigo cinema do Loreto passou a ser um dos que mais frequento em Lisboa por facilmente aí encontrar filmes de superlativa qualidade.
Ontem vimos ali dois documentários do chileno Patrício Guzman rodados num intervalo de cinco anos: «Nostalgia da Luz», de 2010, tem o deserto de Atacama por cenário privilegiado, enquanto «O Botão de Nácar», de 2015, situa-se na Patagónia Ocidental e nas Terras do Fogo. Para completar aquele que promete vir a ser um tríptico, Guzman conta ainda assinar um outro filme na cordilheira andina.
«Nostalgia da Luz» inicia-se num dos muitos centros astronómicos, que aproveitam as condições perfeitas de observação celeste propiciada pela atmosfera límpida e seca do deserto. Algumas das descobertas de outros planetas e de galáxias distantes, ocorridas nos últimos anos, foram aí alcançadas. E, nos espectros dos astros distantes,  cientistas detetam cálcio, matéria fundamental para a existência de seres vivos. Ora, ali bem perto, um conjunto de mulheres prosseguem o laborioso trabalho de prospeção do cálcio outrora existente nos ossos dos seus maridos, namorados, filhos  irmãos, e cujos corpos foram ali abandonados pelos assassinos a soldo de Augusto Pinochet.
Quando veem os telescópios apontarem para os céus estrelados, elas bem gostariam que tivessem a capacidade de se orientarem para a terra e a analisassem em profundidade para revelarem a localização das muitas valas onde ainda estão soterrados os desaparecidos remanescentes do total de vítimas da ditadura chilena.
Num dos documentários um dos entrevistados insurge-se contra a barbárie protagonizada pelos militares chilenos: desde a Antiguidade que sempre foi tácita a autorização dos vencedores para que os familiares dos vencidos retirassem os corpos dos campos de batalha. É que só mediante o ritual do funeral essas famílias poderiam aceitar a morte efetiva dos seus entes queridos e  capacitarem da necessidade de prosseguirem com as respetivas vidas.
No Chile esse respeito pelos familiares dos assassinados não se verificou: por isso mesmo muitas dessas mulheres sabem que nunca deixarão de procurar incessantemente os seus desaparecidos. Porque até lá não conseguirão aceitar a evidência dessa morte…
Em «Botão de Luz» passamos das estrelas e do cálcio para a água. No século XIX o sul chileno ainda tinha cinco grupos distintos de índios, mas quase todos eles seriam dizimados até à extinção, através dos «caçadores» enviados em sua intenção pelos latifundiários apostados em se livrarem de quaisquer obstáculos à implantação de enormes manadas de gado nas vastas planícies do sul do continente.
Esses povos viviam junto ao oceano e dele retiravam quase todo o sustento, O que não tinham era armas, nem outros meios capazes de travarem a perseguição assassina de que foram objeto.
Quase um século depois também aí se criaram centros de tortura e de detenção de prisioneiros políticos, cujos cadáveres eram frequentemente despejados no oceano amarrados a carris de caminho-de-ferro.
Por muito que já detestássemos a ditadura sinistra de Pinochet, Guzman consegue denunciá-la com uma veemência, que só aumenta a dimensão da nossa repulsa. Sem deixar, ainda assim, de nos oferecer imagens de redentora beleza... 

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Os Três Sonhos da China» de Nick Torrens (2013)

Quem me conhece sabe da fase maoísta por que passei logo após o 25 de abril. Embora vivesse grande parte dos anos seguintes a cirandar pelos oceanos atlântico e índico a bordo dos petroleiros da Soponata, ia acompanhando os acontecimentos nacionais e internacionais de acordo com a vulgata dos Grandes Educadores da Classe Operária, quer em Pequim, quer em Lisboa.
Hoje sei que esse não é grande cartão de visita, que se apresente, mas a vida é como é, e aprende-se muito mesmo quando, anos depois, se olha para trás e se pensa: “como podia acreditar que os jovens revolucionários chineses iam para a praia com uma bandeira na mão e o livrinho vermelho na outra?”.
Foi a evocar esse passado mais longínquo, e outro mais recente, quando vivi alguns meses de 1998 em Xangai, que me pus a ver o documentário rodado em Xunqim pelo australiano Nick Torrens durante onze anos para verificar a evolução do pensamento de três gerações sucessivas de chineses.
A primeira dessas gerações corresponde à dos mais velhos, aqueles que sofreram na pele o fanatismo da Revolução Cultural ou dela se assumiram como lídimos defensores e por isso se viram na condição de carrascos.
Hoje, os primeiros só querem esquecer os anos passados em campos de trabalhos forçados, enquanto os segundos arrependem-se dos crimes, mas continuam a admirar o Presidente Mao. Essa é também a geração em que o sonho maior era ter um relógio, um rádio e uma bicicleta. Isso devolve-me à memória da experiência pessoal no estaleiro de Pudong e para a alegria do meu intérprete, Deng, quando apareceu um dia todo orgulhoso com a bicicleta acabada de comprar e que passou horas e horas a experimentar no cais junto ao portaló do «Fernando Pessoa», o navio onde então era Engenheiro Chefe de Máquinas.
Vindo de uma vila do interior situada a mais de dois mil quilómetros de distância da grande metrópole, ele sempre me pareceu o parolo embasbacado com tudo quanto via na grande cidade.
Foi essa a geração, que rapidamente progrediu e ganhou uma qualidade de vida cada vez mais desafogada, expressa no filme pela rapariga capaz de confessar para a câmara que preferiria chorar no interior de um BMW do que rir numa bicicleta. Ansiosa por casar, consegue-o à força de muita persistência junto do pouco convencido namorado, cuja mãe não poupava em críticas à indesejada nora.
Para Lei, a jovem dona da casa-de-chá, que nos vai servindo de cicerone em quase todo o filme, a situação atual insatisfá-la. Ela desejaria que a sociedade questionasse a História recente desde os tempos da Revolução Cultural até ao esmagamento da revolta da praça Tiananmen, mas só encontra indiferença à sua volta.
Ao abordar esses tempos difíceis só encontra a incompreensão dos acomodados ou o medo dos que se acobardam. É por isso dela o terceiro sonho do documentário: o de ver os seus contemporâneos ocuparem-se com as grandes questões quanto ao sentido da vida, depois de terem sucessivamente alcançado as fases de conseguirem as bicicletas, e depois os automóveis de topo de gama.

terça-feira, fevereiro 16, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Valley Of Love» de Guillaume Nicloux

Eis uma história de amor iniciático sobre a parentalidade, a culpabilidade e a espiritualidade. É o 15º filme assinado por Guillaume Nicloux, que além de ter o mesmo nome do defunto filho de Dépardieu, escolhe Isabelle e Gérard para personagens. E para prosseguir na mesma lógica acresce que, numa história em que os dois protagonistas já não se viam há mais de trinta anos, a última vez em que Isabelle Huppert e Gérard Depardieu tinham contracenado juntos tinha sido em «Loulou» em 1980.
Sob o sol escaldante do Nevada Isabelle e Gérard reencontram-se num motel depois de décadas passadas sobre a respetiva separação.
O filho, Michael, suicidara-se seis meses atrás e enviara-lhes cartas a marcar-lhes encontro para ali nessa data, sob a promessa de lhes reaparecer numa das sete atrações turísticas do Vale da Morte, que eles deveriam visitar noutros tantos dias.
Isabelle procura um sentido em tudo quanto está a viver, ao contrário de Gérard, que se revela bem mais pragmático na sua pose de alcoólico. Ademais, e porque tudo aquilo lhe parece uma brincadeira de mau gosto, avisa-a de não permanecer ali tanto tempo quanto as cartas lho impunham por ter uma consulta agendada para daí a cinco dias com o oncólogo onde espera encontrar solução para o seu cancro na bexiga.
Na segunda noite Isabelle afiança ter recebido a visita de Michael , mas Gérard atribui essa convicção a um pesadelo por muito que ela lhe mostre as marcas por ele deixadas nos punhos por onde o agarrara.
Ao terceiro dia ele confessa-lhe viver sozinho enquanto ela se diz decidida a divorciar-se do homem de quem tem dois filhos e a quem telefona obsessivamente.
No quarto dia discordam com veemência das suas opções (ou falta delas) espirituais e só se reconciliam ao recordarem o primeiro encontro.
No quinto dia, ao escalar o Mosaic Canyon, Gérard ouve uma voz a chamá-lo e, ao regressar junto de Isabelle, diz ter encontrado Michael, que garantira continuar a amá-los e perdoar-lhes tudo quanto lhes poderia apontar.
No dia seguinte é Gérard a ostentar marcas de queimaduras parecidas com as de Isabelle.
Temos assim um filme muito eficaz na forma como os personagens mais se aproximam da luz, quando se querem resguardar na sombra, em que a horizontalidade do deserto contrasta com a verticalidade com que evoluem e em que os sete dias os levam a contactar com os quatro elementos: o fogo do sol, a água, a terra do deserto e o ar do vento.
E, porque tudo tem significado, Gérard conhece a sua revelação no Mosaic Canyon, ou seja num sítio com um nome, que remete para um dos possíveis significados da palavra Moisés.

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

LEITURAS AVULSAS: A violência intemporal dos espanhóis

Desde a adolescência, que sempre me habituei a ler vários livros ao mesmo tempo.
Às vezes julgaria preferível concentrar as leituras quotidianas num título em concreto, mais rapidamente desvendado, mas, ensaiando-o, logo volto aos meus cristalizados hábitos.
Nesta altura ando a ler vários romances em simultâneo, dois deles passados em Espanha apesar de nenhum dos autores ali ter nascido.
Com «Nada de Lágrimas» a francesa Lydie Salvayre ganhou o Prémio Goncourt de 2014 e adotou o registo autobiográfico para contar o incrível mês de agosto de 1936, quando a própria mãe viveu o momento mais exaltante da sua longa existência.
Então com quinze anos Montse saíra da aldeia onde os camponeses não se tinham entusiasmado duradouramente com o discurso libertário do irmão, e acompanhara-o na descoberta da Barcelona republicana.
A vivacidade de uma cidade em turbulência, com estalinistas, anarquistas e trotskistas a  imitarem os que discutiam a existência dos anjos quando Constantinopla estava cercada pelos bárbaros, lembra quanto as esquerdas perdem, quando se dividem nos respetivos dogmatismos.

Mas há também a evocação do escritor católico Georges Bernanos, então a viver em Palma de Maiorca, onde acolhera com entusiasmo o levantamento franquista e depois ficara rapidamente abalado com os crimes horrendos praticados pelos sicários nacionalistas sempre apoiados por um clero totalmente dissociado do que deveriam ser os preceitos humanistas da sua fé.
Em «Les Cimetières sous la lune», publicado em 1937, revelaria essa transformação ideológica de quem, nunca abdicando da sua fé, passou a desconfiar justificadamente dos que em seu nome matavam, violavam e torturavam.
O britânico Robert Wilson é o autor de «As Mãos Desaparecidas», cuja ação passa-se em Sevilha num dos seus asfixiantes estios.
Vivendo no Alentejo, o escritor inventou uma personagem, Javier Falcón, que é um inspetor andaluz a contas com o aparente suicídio do casal Vega, mas cujo local do crime lhe suscita dúvidas quanto a tal explicação.
À medida que avanço na intriga vão surgindo as diferentes combinações de atividades da mafia russa e ucraniana, que controla os negócios da droga, da prostituição e do trabalho forçado de centenas de compatriotas a ela submetidos. Seriam eles os culpados do homicídio, que começa a definir-se com a evolução dos dias?
Mas o próprio Rafael Vega torna-se progressivamente mais complexo do que pressuporia a sua atividade de patrão imobiliário, sendo possível que o venhamos a descobrir como antigo carrasco de uma das ditaduras da América do Sul. Acaso isso se venha a confirmar, teremos ambos os romances interligados pela preocupação em denunciar o fascismo, quer nos anos 30, quer mais recentemente além-Atlântico.
Embora enquadráveis em géneros literários diferentes, quer Lydie Salvayre, quer Robert Wilson aproveitam a ficção para trazer a lume algumas das questões pertinentes da atualidade espanhola.