sábado, agosto 08, 2026

O Ano em que Marx Encontrou Alice

 



O Manifesto do Partido Comunista e Alice no País das Maravilhas nasceram no mesmo ano, coincidência que um ateu socialista não pode deixar de saborear: no mesmo calendário em que Marx e Engels anunciaram a luta de classes como motor da história, Lewis Carroll abriu uma porta para um mundo onde a lógica se desfazia, o absurdo governava, hierarquias se dissolviam como cartas de baralho ao vento.

É como se 1848 tivesse decidido mostrar, num só gesto, as duas faces da consciência moderna: a que quer transformar o mundo, e a que quer escapar dele.

O Manifesto antecipava que “tudo o que é sólido se dilui no ar”; e Carroll, sem o saber, oferecia o laboratório imaginário onde isso ficava visível — não com a revolução, mas com a fantasia.

Marx descrevia a alienação; Alice vivia-a. Marx denunciava a arbitrariedade do poder; Alice tropeçava nela a cada página. Marx desmontava a lógica burguesa; Carroll mostrava que, quando levada ao extremo, ela implodia.

Esta coincidência não é um acaso editorial: é metáfora. O século XIX percebeu que o mundo precisava ser reinventado — política e imaginativamente. E que nenhuma transformação social se faz sem transformação do olhar.

O Manifesto oferecia o diagnóstico, Alice o método. Um dizia: o mundo é injusto. O outro respondia: o mundo é absurdo. E ambos, cada um à sua maneira, convidavam à insubmissão.

Talvez por isso esta coincidência fascine: por mostrar que a crítica ao real e a fuga ao real nasceram juntas, como se a imaginação fosse irmã da política, e a luta pela emancipação exigisse também a capacidade de imaginar mundos impossíveis.

1848 não foi apenas ano de revoluções: foi aquele em que a literatura e a política convergiram para dizer que a realidade, tal como está, não basta. E, para a transformar, tanto precisamos de Marx como de Alice — tanto do rigor da análise como da vertigem do sonho.

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