O Manifesto do Partido Comunista e Alice no País das Maravilhas nasceram no mesmo ano, coincidência que um ateu socialista não pode deixar de saborear: no mesmo calendário em que Marx e Engels anunciaram a luta de classes como motor da história, Lewis Carroll abriu uma porta para um mundo onde a lógica se desfazia, o absurdo governava, hierarquias se dissolviam como cartas de baralho ao vento.
É como se
1848 tivesse decidido mostrar, num só gesto, as duas faces da consciência
moderna: a que quer transformar o mundo, e a que quer escapar dele.
O Manifesto
antecipava que “tudo o que é sólido se dilui no ar”; e Carroll, sem o saber,
oferecia o laboratório imaginário onde isso ficava visível — não com a
revolução, mas com a fantasia.
Marx
descrevia a alienação; Alice vivia-a. Marx denunciava a arbitrariedade
do poder; Alice tropeçava nela a cada página. Marx desmontava a lógica
burguesa; Carroll mostrava que, quando levada ao extremo, ela implodia.
Esta
coincidência não é um acaso editorial: é metáfora. O século XIX percebeu que o
mundo precisava ser reinventado — política e imaginativamente. E que nenhuma
transformação social se faz sem transformação do olhar.
O Manifesto
oferecia o diagnóstico, Alice o método. Um dizia: o mundo é injusto. O
outro respondia: o mundo é absurdo. E ambos, cada um à sua maneira, convidavam
à insubmissão.
Talvez
por isso esta coincidência fascine: por mostrar que a crítica ao real e a fuga
ao real nasceram juntas, como se a imaginação fosse irmã da política, e a luta
pela emancipação exigisse também a capacidade de imaginar mundos impossíveis.
1848 não
foi apenas ano de revoluções: foi aquele em que a literatura e a política convergiram
para dizer que a realidade, tal como está, não basta. E, para a transformar, tanto
precisamos de Marx como de Alice — tanto do rigor da análise como da
vertigem do sonho.

Sem comentários:
Enviar um comentário