Godard partia de uma convicção que poucos realizadores tiveram a coragem de levar até às últimas consequências: o cinema não serve para contar histórias, mas para pensar. Cada imagem é um pensamento, cada corte uma articulação lógica ou ilógica entre dois pensamentos, e o espectador que espera narrativa encontra filosofia, o que é simultaneamente uma exigência e uma libertação.
Valha-me
Deus começa
com um conto hassídico que diz tudo sobre o que Godard entendia ser a condição
da cultura moderna: o pai do pai do pai sabia acender o fogo sagrado, conhecia
o lugar na floresta e a oração. O filho do filho do filho já só conhece a
história — e conta-a. É a perda em cascata do conhecimento ritual, da diferença
que tornava cada gesto único, até restar apenas a narrativa sem o ato.
Godard
via o cinema da mesma forma: cada geração afastando-se mais do momento em que a
imagem e o pensamento eram a mesma coisa.
Há neste
filme, como em toda a obra tardia de Godard, uma filiação no Primeiro
Romantismo — essa tradição que recusava a separação entre arte, filosofia e
política, que via na forma estética uma via de conhecimento que a razão pura
não alcançava. Novalis, Schlegel, Hölderlin — Godard lia-os e filmava-os sem o
declarar.
E há a
empatia constante com os vencidos — a Palestina, os povos sem Estado, os que a
história oficial apaga. Godard nunca filmou do lado do poder. Era uma posição
incómoda e coerente, como toda a sua obra.

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