domingo, agosto 02, 2026

Truffaut Revisitado

 


Reconheço alguma razão nos que apontam a Truffaut a contradição de ter atacado o chamado cinema do papá e, três décadas depois, ter rodado Le Dernier Métro, em que replicava muito do que censurara em Decoin e outros realizadores do pós-guerra. A juventude tem dessas urgências que a maturidade vai temperando — às vezes até demais.

Reconheço-lhe igualmente o estatuto de burguês a léguas das preocupações ideológicas do antigo parceiro da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard. Onde um pensava o cinema como arma, o outro pensava-o como sentimento, e essa diferença de temperamento explica tanto do que os separou.

Mas a obra não se resume aos filmes que me foram maçadores na parte final do percurso — o já citado Le Dernier Métro ou La Femme d'à Côté. Há os outros, que me agradaram desde Jules et Jim até ao ciclo Doinel, de L'Enfant Sauvage a La Chambre Verte, que reveria com gosto no Nimas se tivesse disponibilidade para tal.

Um cineasta inteiro não se mede pelos seus piores filmes nem pelos melhores isoladamente, mas pela soma — e a de Truffaut, mesmo com as contradições burguesas e os deslizes tardios, continua a justificar a retrospetiva e a saudade de a rever completa.

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