Reconheço
alguma razão nos que apontam a Truffaut a contradição de ter atacado o chamado
cinema do papá e, três décadas depois, ter rodado Le Dernier Métro, em que
replicava muito do que censurara em Decoin e outros realizadores do pós-guerra.
A juventude tem dessas urgências que a maturidade vai temperando — às vezes até
demais.
Reconheço-lhe
igualmente o estatuto de burguês a léguas das preocupações ideológicas do
antigo parceiro da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard. Onde um pensava o cinema
como arma, o outro pensava-o como sentimento, e essa diferença de temperamento
explica tanto do que os separou.
Mas a
obra não se resume aos filmes que me foram maçadores na parte final do percurso
— o já citado Le Dernier Métro ou La Femme d'à Côté. Há os
outros, que me agradaram desde Jules et Jim até ao ciclo Doinel, de L'Enfant
Sauvage a La Chambre Verte, que reveria com gosto no Nimas se
tivesse disponibilidade para tal.
Um
cineasta inteiro não se mede pelos seus piores filmes nem pelos melhores
isoladamente, mas pela soma — e a de Truffaut, mesmo com as contradições
burguesas e os deslizes tardios, continua a justificar a retrospetiva e a
saudade de a rever completa.

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