segunda-feira, agosto 10, 2026

A Solidão de Dois Samurais

 


Três filmes apenas — O Segredo de um Polícia, O Círculo Vermelho e O Samurai — e no entanto a cumplicidade entre Jean-Pierre Melville e Alain Delon é das mais intensas que o cinema francês produziu. O documentário La Solitude de deux samouraïs aborda essa relação como a de dois irmãos, ou de um pai e um filho — e as duas leituras são igualmente verdadeiras, porque havia entre eles a rivalidade fraternal e a transmissão geracional ao mesmo tempo.

Melville tinha criado um mundo próprio — o do polar francês filtrado pelo cinema negro americano, com homens de gabardina e chapéu de abas largas, códigos de honra em universos dela isentos, o silêncio como linguagem preferencial.

Delon era o rosto perfeito para esse mundo: belo com uma frieza que não era ausência de sentimento mas contenção absoluta dele, capaz de dizer mais com um olhar do que outros com um monólogo.

O Samurai de 1967 é o melhor exemplo dessa cumplicidade: Jef Costello é uma personagem quase sem palavras, sem passado, nem futuro — e Delon habita-a com uma precisão que só é possível quando o ator e realizador confiam inteiramente um no noutro.

A morte súbita de Melville em 1973, com 55 anos, penalizou Delon de um modo que a carreira subsequente acabaria por confirmar. Sem o pai, sem o irmão, sem o espelho que sabia exatamente o que nele havia de melhor, o ator entraria numa nova fase — mais comercial, menos protegida pelo rigor de quem o compreendia. Alguns dos filmes que se seguiram foram bons. Nenhum foi O Samurai.

A cumplicidade entre Melville e Delon tinha um reverso que o documentário não esconde e que importa nomear: ambos eram gaulistas convictos, crentes numa França de valores que julgavam em vias de desaparecimento — uma França de ordem, de hierarquia, de identidade nacional forte, de nostalgia de uma grandeza que o mundo moderno ia corroendo.

Melville combateu na Resistência, o que lhe dava uma autoridade moral que usava com naturalidade — mas a Resistência produziu tanto gaulistas de direita como comunistas, e Melville pertencia inequivocamente ao primeiro campo. Delon foi mais longe e mais explícito, declarando ao longo dos anos simpatias pela extrema-direita francesa que acabariam por manchar a imagem pública do ator, culminando no apoio aberto a Marine Le Pen.

O paradoxo é que o cinema de Melville — precisamente o que Delon melhor incarnou — não tem nada de ideologicamente tranquilizador para a direita. Os heróis são criminosos, os polícias são ambíguos, o código de honra que os governa é paralelo à lei e frequentemente oposto a ela. É um cinema que desconfia das instituições tanto quanto das multidões — uma anarquia aristocrática que se veste de conservadorismo mas no fundo não serve nenhuma ordem estabelecida.

O que Melville e Delon queriam preservar era uma França que talvez nunca tivesse existido fora dos seus filmes — e é irónico que seja precisamente a extrema-direita de hoje a reivindicar esse ideal, sem perceber que estes samurais não serviriam nenhum partido.

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