Três
filmes apenas — O Segredo de um Polícia, O Círculo Vermelho e O
Samurai — e no entanto a cumplicidade entre Jean-Pierre Melville e Alain
Delon é das mais intensas que o cinema francês produziu. O documentário La
Solitude de deux samouraïs aborda essa relação como a de dois irmãos, ou de
um pai e um filho — e as duas leituras são igualmente verdadeiras, porque havia
entre eles a rivalidade fraternal e a transmissão geracional ao mesmo tempo.
Melville
tinha criado um mundo próprio — o do polar francês filtrado pelo cinema negro
americano, com homens de gabardina e chapéu de abas largas, códigos de honra em
universos dela isentos, o silêncio como linguagem preferencial.
Delon era
o rosto perfeito para esse mundo: belo com uma frieza que não era ausência de
sentimento mas contenção absoluta dele, capaz de dizer mais com um olhar do que
outros com um monólogo.
O Samurai
de 1967 é o melhor exemplo dessa cumplicidade: Jef Costello é uma personagem
quase sem palavras, sem passado, nem futuro — e Delon habita-a com uma precisão
que só é possível quando o ator e realizador confiam inteiramente um no noutro.
A morte
súbita de Melville em 1973, com 55 anos, penalizou Delon de um modo que a
carreira subsequente acabaria por confirmar. Sem o pai, sem o irmão, sem o
espelho que sabia exatamente o que nele havia de melhor, o ator entraria numa
nova fase — mais comercial, menos protegida pelo rigor de quem o compreendia.
Alguns dos filmes que se seguiram foram bons. Nenhum foi O Samurai.
A
cumplicidade entre Melville e Delon tinha um reverso que o documentário não
esconde e que importa nomear: ambos eram gaulistas convictos, crentes numa
França de valores que julgavam em vias de desaparecimento — uma França de
ordem, de hierarquia, de identidade nacional forte, de nostalgia de uma
grandeza que o mundo moderno ia corroendo.
Melville
combateu na Resistência, o que lhe dava uma autoridade moral que usava com
naturalidade — mas a Resistência produziu tanto gaulistas de direita como
comunistas, e Melville pertencia inequivocamente ao primeiro campo. Delon foi
mais longe e mais explícito, declarando ao longo dos anos simpatias pela
extrema-direita francesa que acabariam por manchar a imagem pública do ator,
culminando no apoio aberto a Marine Le Pen.
O
paradoxo é que o cinema de Melville — precisamente o que Delon melhor incarnou
— não tem nada de ideologicamente tranquilizador para a direita. Os heróis são
criminosos, os polícias são ambíguos, o código de honra que os governa é
paralelo à lei e frequentemente oposto a ela. É um cinema que desconfia das
instituições tanto quanto das multidões — uma anarquia aristocrática que se
veste de conservadorismo mas no fundo não serve nenhuma ordem estabelecida.
O que
Melville e Delon queriam preservar era uma França que talvez nunca tivesse
existido fora dos seus filmes — e é irónico que seja precisamente a
extrema-direita de hoje a reivindicar esse ideal, sem perceber que estes
samurais não serviriam nenhum partido.

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