Num
documentário de Carmen Castillo, José Saramago constata que, um dia, quando a
Via Láctea for engolida pelo buraco negro do centro da galáxia, tudo
desaparecerá — não apenas o que somos, mas o que fomos, o que escrevemos, o que
construímos, o que amámos. Será como se nada tivesse existido.
A frase
não é trágica, apenas lúcida. E talvez por isso incomode: porque retira à
memória o privilégio e devolve ao tempo a indiferença.
No mesmo
documentário, Saramago discute com um astrofísico a natureza do tempo, entidade
que não se deixa medir pela experiência humana. O tempo não é linha, sucessão ou
calendário. É campo, curvatura, dimensão que nos ultrapassa. E quando pensamos
nisso, percebemos que a obsessão por preservar arquivos, monumentos, histórias
ou fotografias, é apenas tentativa de contrariar o que o universo faz
naturalmente: dissolver.
Talvez
por isso a canção Avec le temps, de Léo Ferré, mantenha a pertinência.
Não porque fala de amor perdido, mas por reconhecer que o tempo nada devolve.
Com o tempo, tudo se apaga, até ele mesmo se torna irrelevante. Ferré não canta
a perda; canta a erosão. A mesma que Saramago imagina à escala cósmica.
Transitemos
então para os dois primeiros episódios de uma série holandesa sobre o que está
a desaparecer. Tuvalu, que será engolida pelo mar dentro de algumas décadas,
como se fosse ensaio antecipado daquilo que acontecerá à galáxia inteira. Uma
ilha que se dissolve não é apenas território perdido; é cultura, língua,
memória, infância, futuro. É a demonstração de o tempo não ser abstrato: é
físico, água a subir, chão a desaparecer.
E no
mesmo conjunto de episódios surgem pessoas que tentaram o suicídio, não por
fraqueza, mas por exaustão: vencidas pela bulimia, pelo vício do sexo, pela
incapacidade de suportar o peso da própria consciência. Não há romantismo,
apenas o reconhecimento de que o tempo interior também corrói, engole e
destrói. O que desaparece não é apenas o corpo; é a possibilidade de continuar.
Entre
Saramago, Ferré, Tuvalu e essas vidas suspensas, forma‑se uma constelação realista
de perdas. O mundo desaparece. As ilhas desaparecem. As pessoas desaparecem. As
galáxias desaparecem. E, no entanto, continuamos a escrever, a cantar, a
filmar, a contar. Não para vencer o tempo, mas para o habitar enquanto ele nos
permite.
Talvez
seja essa a única resposta possível: aceitar que tudo se dissolve e, ainda
assim, continua a criar sentido. Como quem acende uma luz sabendo que ela não
iluminará o fim, mas ilumina o agora — e isso basta.

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