domingo, agosto 02, 2026

O Que o Tempo Engole

 


Num documentário de Carmen Castillo, José Saramago constata que, um dia, quando a Via Láctea for engolida pelo buraco negro do centro da galáxia, tudo desaparecerá — não apenas o que somos, mas o que fomos, o que escrevemos, o que construímos, o que amámos. Será como se nada tivesse existido.

A frase não é trágica, apenas lúcida. E talvez por isso incomode: porque retira à memória o privilégio e devolve ao tempo a indiferença.

No mesmo documentário, Saramago discute com um astrofísico a natureza do tempo, entidade que não se deixa medir pela experiência humana. O tempo não é linha, sucessão ou calendário. É campo, curvatura, dimensão que nos ultrapassa. E quando pensamos nisso, percebemos que a obsessão por preservar arquivos, monumentos, histórias ou fotografias, é apenas tentativa de contrariar o que o universo faz naturalmente: dissolver.

Talvez por isso a canção Avec le temps, de Léo Ferré, mantenha a pertinência. Não porque fala de amor perdido, mas por reconhecer que o tempo nada devolve. Com o tempo, tudo se apaga, até ele mesmo se torna irrelevante. Ferré não canta a perda; canta a erosão. A mesma que Saramago imagina à escala cósmica.

Transitemos então para os dois primeiros episódios de uma série holandesa sobre o que está a desaparecer. Tuvalu, que será engolida pelo mar dentro de algumas décadas, como se fosse ensaio antecipado daquilo que acontecerá à galáxia inteira. Uma ilha que se dissolve não é apenas território perdido; é cultura, língua, memória, infância, futuro. É a demonstração de o tempo não ser abstrato: é físico, água a subir, chão a desaparecer.

E no mesmo conjunto de episódios surgem pessoas que tentaram o suicídio, não por fraqueza, mas por exaustão: vencidas pela bulimia, pelo vício do sexo, pela incapacidade de suportar o peso da própria consciência. Não há romantismo, apenas o reconhecimento de que o tempo interior também corrói, engole e destrói. O que desaparece não é apenas o corpo; é a possibilidade de continuar.

Entre Saramago, Ferré, Tuvalu e essas vidas suspensas, forma‑se uma constelação realista de perdas. O mundo desaparece. As ilhas desaparecem. As pessoas desaparecem. As galáxias desaparecem. E, no entanto, continuamos a escrever, a cantar, a filmar, a contar. Não para vencer o tempo, mas para o habitar enquanto ele nos permite.

Talvez seja essa a única resposta possível: aceitar que tudo se dissolve e, ainda assim, continua a criar sentido. Como quem acende uma luz sabendo que ela não iluminará o fim, mas ilumina o agora — e isso basta.

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