sexta-feira, agosto 14, 2026

A Linha Breve da Existência

 


Os Balouch têm um provérbio que reduz a existência ao essencial: nascer, vaguear, morrer, apodrecer e ser esquecido. A frase não pede interpretação, não oferece consolo, não promete continuidade; limita‑se a enunciar o percurso com a sobriedade de quem conhece a terra, o tempo e a erosão que ambos exercem sobre tudo o que vive. Há nesta síntese uma lucidez que não precisa de metafísica, porque não procura sentido fora do que acontece, e talvez seja isso que a torna tão desconfortável para quem acredita que a vida exige prolongamento para ser suportável.

O paradoxo está na origem: um povo considerado primitivo formula uma visão que desmonta, com uma linha, a arquitetura elaborada das religiões que prometem vários modelos de Além. A simplicidade do provérbio não é ignorância; é recusa de fantasia. A ideia de que a morte é apenas fim, e não passagem, contraria séculos de construção simbólica que tentaram transformar o desaparecimento em trânsito, como se a finitude fosse defeito e não condição.

A soberba do ateísmo, se existe, nasce deste confronto. Não é superioridade moral, é apenas a convicção de que a vida não precisa de ser prolongada para ser compreendida. A metafísica oferece continuidade porque teme o vazio; o provérbio Balouch aceita o vazio como parte do ciclo. A diferença é de postura: uns procuram eternidade, outros aceitam dissolução. E nessa aceitação há uma forma de inteligência que não depende de livros sagrados, apenas de observação.

A existência, reduzida a estes cinco verbos, ganha uma clareza que dispensa consolo. Talvez por isso incomode. Talvez por isso permaneça.

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