A Etiópia
não é apenas o cenário das aventuras de Corto Maltese — é também o território
onde a biografia de Hugo Pratt se fratura e forma. E talvez por isso as
histórias africanas de Corto têm sempre uma vibração particular, como se o
desenho carregasse uma memória que não é apenas ficção, mas sobrevivência.
Pratt
chegou à África Oriental Italiana em 1937, ainda criança, acompanhando a mãe
para se juntar ao pai, militar destacado na colónia. Ali viveu a adolescência
etíope que mais tarde transformaria em matéria narrativa. Não era turista, nem
viajante ocasional, mas filho de um império em guerra, testemunha de uma
ocupação, prisioneiro num campo aliado em Diré Daua, órfão de pai morto em
cativeiro. Essa experiência — dura, precoce, violenta — moldou o olhar que mais
tarde daria a Corto Maltese a ambiguidade moral, o nomadismo, a recusa de
fronteiras.
Quando
Pratt regressa à Etiópia nas histórias, volta ao lugar onde aprendeu que o
mundo não é estável. E Corto, estrangeiro em toda a parte, torna‑se ali quase
íntimo: conhece os desertos, os acampamentos, os mercenários, os soldados
coloniais, os rebeldes, os contrabandistas. Conhece sobretudo a ambivalência —
essa zona cinzenta onde ninguém é totalmente herói nem vilão.
A Etiópia
de Os Escorpiões do Deserto não é paisagem exótica: é memória
transformada em mito. Pratt viveu a guerra na região, viu o colapso da África
Oriental Italiana, a violência e a desorientação dos últimos dias do império. E
essa vivência infiltra‑se na obra: os escorpiões não são apenas soldados, mas
sobreviventes de uma história que se desfaz enquanto avança.
Corto
Maltese atravessa a Etiópia como se se tratasse de uma ferida antiga. Não
pertence ao colonialismo, mas também não pertence à resistência. Move‑se entre
ambos, como se procurasse compreender o que o autor viveu sem o poder dizer
diretamente.
A
biografia de Pratt explica essa ambiguidade: foi o mais jovem soldado de
Mussolini, alistado pelo pai; prisioneiro dos britânicos; suspeito de
espionagem pelos alemães; intérprete dos aliados; e, enfim, alguém que viu
todos os lados da guerra antes de completar vinte anos.
Corto
herda essa multiplicidade. É um personagem que sabe a história não linear, a
moral complexa, e a aventura sem inocência.
Daí a
centralidade da Etiópia na obra de Pratt: é o lugar onde aprendeu que o mundo é
feito de fronteiras móveis, de lealdades instáveis, de identidades provisórias.
E é também onde Corto se torna ainda mais Corto — errante, irónico, atento ao
que não se diz.
Ao lermos
as aventuras etíopes de Corto, não estamos apenas a seguir um herói de BD mas a
atravessar a infância perdida de Hugo Pratt, transformada em mito para que
pudesse ser suportada.

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