segunda-feira, agosto 03, 2026

A Etiópia Onde Nasce o Mito

 


A Etiópia não é apenas o cenário das aventuras de Corto Maltese — é também o território onde a biografia de Hugo Pratt se fratura e forma. E talvez por isso as histórias africanas de Corto têm sempre uma vibração particular, como se o desenho carregasse uma memória que não é apenas ficção, mas sobrevivência.

Pratt chegou à África Oriental Italiana em 1937, ainda criança, acompanhando a mãe para se juntar ao pai, militar destacado na colónia. Ali viveu a adolescência etíope que mais tarde transformaria em matéria narrativa. Não era turista, nem viajante ocasional, mas filho de um império em guerra, testemunha de uma ocupação, prisioneiro num campo aliado em Diré Daua, órfão de pai morto em cativeiro. Essa experiência — dura, precoce, violenta — moldou o olhar que mais tarde daria a Corto Maltese a ambiguidade moral, o nomadismo, a recusa de fronteiras.

Quando Pratt regressa à Etiópia nas histórias, volta ao lugar onde aprendeu que o mundo não é estável. E Corto, estrangeiro em toda a parte, torna‑se ali quase íntimo: conhece os desertos, os acampamentos, os mercenários, os soldados coloniais, os rebeldes, os contrabandistas. Conhece sobretudo a ambivalência — essa zona cinzenta onde ninguém é totalmente herói nem vilão.

A Etiópia de Os Escorpiões do Deserto não é paisagem exótica: é memória transformada em mito. Pratt viveu a guerra na região, viu o colapso da África Oriental Italiana, a violência e a desorientação dos últimos dias do império. E essa vivência infiltra‑se na obra: os escorpiões não são apenas soldados, mas sobreviventes de uma história que se desfaz enquanto avança.

Corto Maltese atravessa a Etiópia como se se tratasse de uma ferida antiga. Não pertence ao colonialismo, mas também não pertence à resistência. Move‑se entre ambos, como se procurasse compreender o que o autor viveu sem o poder dizer diretamente.

A biografia de Pratt explica essa ambiguidade: foi o mais jovem soldado de Mussolini, alistado pelo pai; prisioneiro dos britânicos; suspeito de espionagem pelos alemães; intérprete dos aliados; e, enfim, alguém que viu todos os lados da guerra antes de completar vinte anos.

Corto herda essa multiplicidade. É um personagem que sabe a história não linear, a moral complexa, e a aventura sem inocência.

Daí a centralidade da Etiópia na obra de Pratt: é o lugar onde aprendeu que o mundo é feito de fronteiras móveis, de lealdades instáveis, de identidades provisórias. E é também onde Corto se torna ainda mais Corto — errante, irónico, atento ao que não se diz.

Ao lermos as aventuras etíopes de Corto, não estamos apenas a seguir um herói de BD mas a atravessar a infância perdida de Hugo Pratt, transformada em mito para que pudesse ser suportada.

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