António-Pedro
Vasconcelos morreu em março de 2024, aos 84 anos, deixando na mesa de trabalho
o argumento que tinha preparado a partir de "Lavagante, Encontro
Desabitado", a novela de José Cardoso Pires.
Coube a
Paulo Branco, produtor do projeto, desafiar Mário Barroso a concretizar o que
Vasconcelos não vivera o suficiente para sequer começar a filmar. Lavagante
é, por isso, antes de mais nada, um ato de fidelidade com o mérito de herdar um
sonho que não era o de quem dele se incumbiu.
Barroso,
então com 78 anos, definiu-o como "um filme de passagem de
testemunho", onde coexistem três vozes: a do escritor, a do argumentista e
a do realizador. É uma definição justa. Sente-se em cada plano que há ali uma
dívida a pagar, e que ela foi paga com escrúpulo.
A
fotografia é o coração do filme, e o que nela importa é como o preto e branco
deixa de ser opção estética para se tornar argumento histórico. Barroso
explicou que a vontade de filmar a preto e branco vinha de uma memória precisa:
o Portugal que abandonara em 1967 era cinzento, triste. E foi categórico quanto
ao processo: não quis "carregar num botão e transformar a imagem em preto
e branco" — iluminou o filme para esse propósito desde o início,
procurando transmitir não apenas a memória visual da época mas a sensação de
opressão que dominava o quotidiano.
É essa
distinção que torna o filme urgente num tempo em que alguns querem fazer-nos
regressar a essa cinzentude, fingindo que ela foi apenas estética e não a
textura do medo. Barroso disse-o sem rodeios: as gerações atuais não conseguem
imaginar o que foi viver 48 anos em ditadura. O preto e branco de Lavagante
não é nostalgia de cinéfilo — é um espelho colocado deliberadamente em frente a
quem hoje relativiza o que esse cinzento custou a quem o viveu.
A
fotografia dá a densidade certa a ambientes e personagens, à luz no preto e
branco, à névoa sobre a serra da Arrábida, ao nevoeiro do fumo das salas da
redação dos jornais e dos cafés, transmitindo o necessário toque claustrofóbico
a uma verdade dramática. O melhor do filme está nessa atmosfera visual de
Barroso, entre a luz e a sombra, com Júlia Palha magnética, ambígua, cruel, e a
coragem de falar do fascismo sem floreados nem simplificações.
Fica um
filme que cumpre uma promessa póstuma e que, ao fazê-lo, cumpre também outra: a
de recordar que o cinzento nunca foi neutro.

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