segunda-feira, agosto 03, 2026

O Cinzento que Não Era Estilo, Era Vida

 


António-Pedro Vasconcelos morreu em março de 2024, aos 84 anos, deixando na mesa de trabalho o argumento que tinha preparado a partir de "Lavagante, Encontro Desabitado", a novela de José Cardoso Pires.

Coube a Paulo Branco, produtor do projeto, desafiar Mário Barroso a concretizar o que Vasconcelos não vivera o suficiente para sequer começar a filmar. Lavagante é, por isso, antes de mais nada, um ato de fidelidade com o mérito de herdar um sonho que não era o de quem dele se incumbiu.

Barroso, então com 78 anos, definiu-o como "um filme de passagem de testemunho", onde coexistem três vozes: a do escritor, a do argumentista e a do realizador. É uma definição justa. Sente-se em cada plano que há ali uma dívida a pagar, e que ela foi paga com escrúpulo.

A fotografia é o coração do filme, e o que nela importa é como o preto e branco deixa de ser opção estética para se tornar argumento histórico. Barroso explicou que a vontade de filmar a preto e branco vinha de uma memória precisa: o Portugal que abandonara em 1967 era cinzento, triste. E foi categórico quanto ao processo: não quis "carregar num botão e transformar a imagem em preto e branco" — iluminou o filme para esse propósito desde o início, procurando transmitir não apenas a memória visual da época mas a sensação de opressão que dominava o quotidiano.

É essa distinção que torna o filme urgente num tempo em que alguns querem fazer-nos regressar a essa cinzentude, fingindo que ela foi apenas estética e não a textura do medo. Barroso disse-o sem rodeios: as gerações atuais não conseguem imaginar o que foi viver 48 anos em ditadura. O preto e branco de Lavagante não é nostalgia de cinéfilo — é um espelho colocado deliberadamente em frente a quem hoje relativiza o que esse cinzento custou a quem o viveu.

A fotografia dá a densidade certa a ambientes e personagens, à luz no preto e branco, à névoa sobre a serra da Arrábida, ao nevoeiro do fumo das salas da redação dos jornais e dos cafés, transmitindo o necessário toque claustrofóbico a uma verdade dramática. O melhor do filme está nessa atmosfera visual de Barroso, entre a luz e a sombra, com Júlia Palha magnética, ambígua, cruel, e a coragem de falar do fascismo sem floreados nem simplificações.

Fica um filme que cumpre uma promessa póstuma e que, ao fazê-lo, cumpre também outra: a de recordar que o cinzento nunca foi neutro.

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