segunda-feira, agosto 10, 2026

A Brecha do Dia Seguinte

 



Volto aos documentários de Jacinto Godinho sobre Os Últimos Dias da Pide, não pela nostalgia de um tempo que não merece regresso, mas pela precisão com que expõem o intervalo entre o desmoronar de um regime e a tentativa imediata de o recompor, como se a história tivesse deixado uma fresta aberta por onde pudesse entrar, de novo, a velha sombra. É nela que se percebe o gesto calculado de Spínola, atento ao cansaço dos que tinham conduzido a Revolução e convencido de que o dia seguinte lhe oferecia terreno para reinstalar, com outra máscara, a mesma arquitetura de poder.

Essa ambição revela-se no detalhe: a nomeação apressada de um novo diretor para a Pide, a crença de que a máquina repressiva podia sobreviver ao colapso político, a ilusão de que bastaria substituir Silva Pais para que o edifício se mantivesse de pé, e esta tentativa de continuidade diz mais sobre o instinto autoritário do que sobre qualquer estratégia, porque pressupunha que o país, exausto mas atento, aceitaria a reciclagem da violência desde que embrulhada numa retórica de ordem.

Houve então a reação imediata dos capitães de Abril como reflexo de lucidez: perceberam que a sobrevivência da Pide significaria a sobrevivência da noite, e que permitir-lhe a reconfiguração equivaleria a aceitar que a Revolução fosse apenas um parêntesis. É essa consciência que impede e desmonta o plano, força Spínola a recuar, primeiro no discurso, depois no próprio país, até à fuga para Espanha que sela o fracasso do golpe que imaginara como continuação natural do poder.

Este episódio muito importa na memória democrática: não apenas significou o fim formal da polícia política, mas o da sua respiração subterrânea, da capacidade de infiltrar o quotidiano, de transformar o medo em método, e talvez seja por isso que estes documentários continuam a ser necessários, porque lembram que a liberdade não se consolida por decreto, mas por vigilância crítica, e que cada tentativa de regressão começa sempre com a promessa de que nada mudará demasiado.

Revisitar estes dias não é exercício histórico, mas de atenção atenção: perceber como o autoritarismo tenta sempre sobreviver ao seu próprio colapso, como procura brechas, se disfarça, espera, e depende, sobretudo, da distração dos que acreditam que a democracia está garantida.

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