Volto aos documentários de Jacinto Godinho sobre Os Últimos Dias da Pide, não pela nostalgia de um tempo que não merece regresso, mas pela precisão com que expõem o intervalo entre o desmoronar de um regime e a tentativa imediata de o recompor, como se a história tivesse deixado uma fresta aberta por onde pudesse entrar, de novo, a velha sombra. É nela que se percebe o gesto calculado de Spínola, atento ao cansaço dos que tinham conduzido a Revolução e convencido de que o dia seguinte lhe oferecia terreno para reinstalar, com outra máscara, a mesma arquitetura de poder.
Essa
ambição revela-se no detalhe: a nomeação apressada de um novo diretor para a
Pide, a crença de que a máquina repressiva podia sobreviver ao colapso
político, a ilusão de que bastaria substituir Silva Pais para que o edifício se
mantivesse de pé, e esta tentativa de continuidade diz mais sobre o instinto
autoritário do que sobre qualquer estratégia, porque pressupunha que o país,
exausto mas atento, aceitaria a reciclagem da violência desde que embrulhada
numa retórica de ordem.
Houve
então a reação imediata dos capitães de Abril como reflexo de lucidez:
perceberam que a sobrevivência da Pide significaria a sobrevivência da noite, e
que permitir-lhe a reconfiguração equivaleria a aceitar que a Revolução fosse
apenas um parêntesis. É essa consciência que impede e desmonta o plano, força
Spínola a recuar, primeiro no discurso, depois no próprio país, até à fuga para
Espanha que sela o fracasso do golpe que imaginara como continuação natural do
poder.
Este
episódio muito importa na memória democrática: não apenas significou o fim
formal da polícia política, mas o da sua respiração subterrânea, da capacidade
de infiltrar o quotidiano, de transformar o medo em método, e talvez seja por
isso que estes documentários continuam a ser necessários, porque lembram que a
liberdade não se consolida por decreto, mas por vigilância crítica, e que cada
tentativa de regressão começa sempre com a promessa de que nada mudará
demasiado.
Revisitar
estes dias não é exercício histórico, mas de atenção atenção: perceber como o
autoritarismo tenta sempre sobreviver ao seu próprio colapso, como procura
brechas, se disfarça, espera, e depende, sobretudo, da distração dos que
acreditam que a democracia está garantida.

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