Na
Etiópia dos anos 30 surgiu o primeiro sinal de que a Europa caminhava para um
abismo que ainda não sabia nomear. A invasão ordenada por Mussolini funciona como
ensaio geral da violência perpetrada pela arrogância imperial de quem confiava
na superioridade das armas e na fragilidade dos povos que pretendia subjugar,
como se a força pudesse substituir a legitimidade e a conquista pudesse
disfarçar a decadência interna de um regime que só respirava graças à
propaganda.
Antes da
Guerra Civil de Espanha e da marcha para a catástrofe global, a Etiópia tornou‑se
o laboratório de uma ideologia que precisava de provar a si própria que podia
dominar, e é essa necessidade de demonstração que revela o mecanismo íntimo dos
fascismos — a convicção de que o mundo se dobra perante quem o ameaça, os
recursos dos outros são matéria disponível, e a violência é argumento
suficiente para justificar qualquer ambição.
A
comunidade internacional hesitou, como se a distância geográfica pudesse
justificar a da moral, e ela ecoa no presente, quando regimes que se julgam
militarmente inquebrantáveis repetem o mesmo padrão: escolher alvos que
consideram mais fracos, explorar recursos que não lhes pertencem, transformar
fronteiras em pretextos, e tudo isto sob a mesma retórica de inevitabilidade
que já ouvimos antes, como se a história não tivesse deixado provas suficientes
do que acontece quando a força se torna método.
A ambição
territorial continua a vestir-se de discursos de proteção, de tradição, de
destino, e o verdadeiro ponto de viragem não foi apenas a invasão da Etiópia,
mas a incapacidade de reconhecer que aquele gesto anunciava uma lógica que não
se esgotaria ali, e que regressa sempre que o poder se convence de que a
fragilidade dos outros é oportunidade e não alerta.
Revisitar
este episódio da História não é exercício de memória, é exercício de
vigilância: perceber como ela se repete quando não é lida com atenção, os
sinais surgem antes das tragédias a violência começa sempre por testar limites,
e a indiferença é, muitas vezes, o primeiro aliado dos que acreditam que podem
dobrar o mundo à força.

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