sábado, agosto 08, 2020

(NM) Garimpo na Guiana e um Darth Vader na corrida espacial


1. Os incêndios na Amazónia não pararam e a eles se associa a movimentação dos garimpeiros para procurarem riquezas minerais, que julgam escondidas nas suas profundezas, não enjeitando formas de destruírem os ecossistemas se essas forem as formas de alcançarem os seus objetivos.

De França surge a notícia da possibilidade de serem enviados reforços militares em socorro da sua colónia guianesa, subitamente invadida por prospetores brasileiros para os quais não existem fronteiras tão-só acedam aos filões, que imaginam possíveis naquele território densamente ocupado por floresta primária.
Bolsonaro abriu a tampa de uma caixa, que muitos dos apoiantes julgariam ser a de Pandora, mas ameaça fechar-se a curto prazo. Daí que, enquanto não são travados do seu lado da fronteira, não se privam de criar situações de facto no território vizinho.
2. O sucesso conseguido pela empresa espacial de Elon Musk em colocar astronautas em órbita e fazê-los regressar à terra em segurança deu azo a campanhas mediáticas nos jornais e televisões destinadas a quase endeusarem a argúcia do investidor norte-americano. Que o sujeito é um crápula ficou demonstrado no que disse a propósito do golpe perpetrado na Bolívia contra Evo Morales só porque o seu governo não lhe facilitava o acesso ao lítio de que tanto carecem os seus carros Tesla. Razão porque considera legítima a intervenção da CIA e do Pentágono na facilitação da mudança politica no país andino de modo a nele pôr a mandar um qualquer fantoche comandado por Washington. Mas, não só: melhor cliente do que a NASA, que lhe vale o lançamento de mistificações como as das viagens tripuladas a Marte para breve, Musk tem como um dos principais clientes o Pentágono, que lhe faculta receitas apreciáveis mediante armas e software com que possa ser mais eficiente na afirmação imperialista do seu poder a nível mundial, mormente nas telecomunicações.
Se há muita gente a tomar Elon Musk como uma espécie de Luke Skywalker da corrida espacial, a sua verdadeira natureza acaba por ser a de um sinistro Darth Vader...

sexta-feira, agosto 07, 2020

(DIM) O dia-a-dia de comunidades tão diferentes


Aprecio bastante os documentários. De tal forma, que lhes repito a experiência, quando me deixaram recordação memorável, como foi o caso de O Grande Museu de Johannes Holzhausen, que vira há meia dezena de anos, quando se estreara em salas portuguesas. Agora foi com o mesmo prazer que voltei a ver o dia-a-dia dos curadores ou dos peritos em restauro do Kunsthistorisches Museum de Viena na altura em que decorre a requalificação parcial do seu edifício principal para albergar a coleção de escultura e de artes decorativas dos Habsburgos. Foram estes quem mandara construir a instituição, inaugurando-a em 1891, com o objetivo de acolher as obras acumuladas no seu espólio.
Nunca recorrendo a voz off ou a depoimentos para a câmara, Holzhausen  possibilita-nos, porém, o acesso às reuniões administrativas onde se sentem algumas tensões internas entre diretores e dirigidos ou mesmo entre as espartilhadas equipas dos vários departamentos.
No final conclui-se com uma imagem metafórica: a da mudança de localização do quadro que Brueghel, o Velho dedicou à Torre de Babel, demonstrando-se a inevitabilidade de algo se mudar no que se pretenda perenizar.
Outro documentário, que me mereceu atenção foi Hálito Azul, que Rodrigo Areias rodou na aldeia piscatória de Ribeira Quente na ilha de São Miguel.
Tendo as palavras de Raul Brandão como estímulo, regista-se o dia-a-dia dos homens, mulheres e crianças numa comunidade a contas com a inevitável transformação da atividade, que a alimenta. Como se diz no filme, os pescadores cultivam o mar, enquanto os industriais exploram-no. E pressente-se a morte anunciada de uma cultura em que ganham presença as sereias e outros mitos centenários, não se adivinhando as alternativas, que garantirão futuro aos jovens, ali ainda decididos a imitarem os pais e avós na intenção de continuarem a viver da pesca...

quarta-feira, agosto 05, 2020

(NM) À procura do que desconhecemos


1. Andamos a descobrir os seis episódios já disponíveis na Netflix sobre a Ciência que em tudo se esconde e que a todos - habitantes deste planeta azul!  - nos liga. Connected é apresentado por Latif Nasser, um doutorado por Harvard, que é igualmente autor de duas bem sucedidas conferências na Ted Talks.
No segundo episódio, dedicado aos excrementos, tivemos a surpresa de vê-lo iniciado em Minde onde uma equipa de arqueólogos biomoleculares andam a recolher os vestígios aí deixados pelos nossos antepassados de há 50 mil anos e, através de análises laboratoriais, concluírem o que comiam, como viviam e que tipo de bactérias ou vírus os podiam afetar. Olhar para aquele bem organizado campo de investigação do passado e sabê-lo espelho da ciência praticada no nosso país, dá-nos motivo de orgulho e faz-nos pensar que os frutos da herança de Mariano Gago continuam a proliferar.
Visitando outros cientistas nas mais variadas geografias o divertido apresentador da série consegue que um dos responsáveis pelo sistema de esgotos de Londres confesse bater continência sempre que por ele passam os excrementos da rainha, constata como tudo quanto ingerimos (mormente medicamentos e drogas) vai parar aos rios e oceanos afetando a vida neles existente. Há excrementos bons - os das baleias, que correspondem a nutrientes trazidos das profundezas para servirem de alimento aos peixes, que vivem mais à superfície - e deles podem, igualmente, ser extraídos os promissores fagos, que correspondem à solução para vencer as temíveis superbactérias contra as quais nenhum antibiótico já consegue ser eficaz. E há a curiosidade, que já motiva certos cientistas da NASA sobre o que se encontrarão nos sacos abandonados pelas tripulações das várias missões Apollo, com esses dejetos, cujas bactérias e vírus não se sabe se sobreviveram a cinquenta anos de confinamento na superfície lunar.
No episódio anterior esteve em causa a Vigilância, questionando aqueles que exibem todos os aspetos das suas vidas nas redes sociais, nelas se encontrando até aquilo que desejariam escamotear, muito embora essas tecnologias sejam interessantes para compreender as razões, que levam umas aves, os sabiás, a anteciparem as nidificações para melhor escaparem aos furacões das Caraíbas, que nenhum sistema de previsão meteorológica consegue antecipar tão rigorosamente. Ou como as tecnologias de reconhecimento facial podem ajudar a compreender o humor de um animal e ser utilizado para manter vivas algumas criaturas quase extintas.
Surpreendente, igualmente, o terceiro episódio, dedicado à capacidade da poeira do Saara atravessar oceanos e ser capaz de fertilizar o solo da floresta amazónica ou retirar força aos furacões que se formam na costa africana e tendem a causar devastações nas Caraíbas ou no Leste dos Estados Unidos.
2. Há uns bons quarenta anos, andava eu num superpetroleiro da Soponata, o Neiva, quando um outro Oficial de Máquinas, o saudoso Antonino, questionou-me se conhecia a Dorita de Castel-Branco.
Nas longas viagens até ao Golfo Pérsico, com ida e regresso através do Cabo da Boa Esperança, esse tema era tão bom como qualquer outro para vencer a monotonia dos dias sempre iguais. E, nessa época, confesso que, apesar de ser aquela em que a escultora mais notoriedade conseguia recolher da atenção mediática, passava-me completamente ao lado, até porque o interesse pelas artes plásticas só me viria mais tarde, quando já não me bastava a dedicação à cinefilia ou à leitura.
Ficou-me o nome, uma referência aqui, outra acolá, desde então, até me surgir o documentário de Laurent Filipe intitulado À Procura da Moça Dorita. E que bela proposta é, ao fazer inteira justiça a uma mulher extremamente criativa e determinada, autora de obras merecedoras de melhor atenção do que vêm usufruindo, tanto mais que, muitas delas, estão expostas em espaços públicos por onde transitam multidões indiferentes às propostas estéticas ali a seu lado. Muitas delas dotadas de uma carga erótica, que a artista sempre considerou fundamental no seu trabalho, outras denotando um abstracionismo geométrico muito sugestivo.
O documentário entrevista os amigos que a conheceram e dela só dizem o melhor possível, mormente essa capacidade de nunca se deixar vencer pela doença, que a remeteu para uma cadeira de rodas nos últimos anos de vida.
A esta distância temporal gostaria de dizer ao Antonino que sim senhor, a obra de Dorita passou a merecer-me rendida apreciação. Só que também ele há muito se foi!

terça-feira, agosto 04, 2020

(C) Cálculos científicos objeto de reformulação


1. Eu ainda sou do tempo em que o Sistema Solar tinha nove planetas, o último dos quais Plutão. Em 1992 assisti com interesse à polémica suscitada pela decisão da União Astronómica Internacional em despromovê-lo para a condição de planeta-anão, apesar dos seus apreciáveis  2370 quilómetros de diâmetro. Por essa altura mantinha-se aberta a probabilidade de um planeta X, a distância mais afastada do Sol, e com a presunção dele sim, merecer o lugar que o infeliz vizinho perdera nessa Assembleia.
Desde então já mais de três mil outros planetoides, com diâmetros entre os 30 e os 370 kms de diâmetro foram identificados para lá da órbita de Neptuno, mantendo-se Plutão como o maior de todos eles. De quem não sobra nenhum rasto é desse desconhecido planeta, inacessível aos mais avançados telescópios atuais, que, pelo contrário, vão detetando sucessivos exoplanetas pertencentes a outros sistemas estelares.
2. Um estudo do Centro Alemão para a Biodiversidade Integrativa, sedeado em Leipzig, contraria as previsões mais alarmistas, que davam as populações mundiais de insetos a reduzirem-se em 25% por década, apresentando novos cálculos a situarem essa quebra em 8,8% com impacto mais significativo nas borboletas, besouros e gafanhotos.
O facto de a notícia ser menos má do que se julgava não invalida, que estejam em causa os equilíbrios de inúmeros ecossistemas para os quais a atividade dos insetos é fundamental, seja para a polinização das flores, a decomposição de matéria orgânica, a alimentação dos pássaros ou o controle de outras espécies danosas. De positivo há a referir o aumento das populações, que vivem nos cursos de águas graças à melhoria da sua qualidade e aos efeitos da desindustrialização.
Segundo o documento agora conhecido a situação tem-se degradado significativamente nos países do Leste Europeu.

domingo, agosto 02, 2020

(P) Patricia Petibon a interpretar 'When I am laid in earth' de Purcell...

(DIM) «Esplendor» de Naomi Kawase (2017)


Sobre este filme de Naomi Kawase, estreado entre nós há dois anos, Luís Miguel Oliveira escreveu no «Público» ser daqueles que dá vontade de reagir-lhes fechando os olhos. Não acrescenta o explícito objetivo de aproveitar para adormecer, mas convenhamos que deve ter-me assim acontecido porque, à segunda oportunidade para o ver, nada retivera da primeira.
A protagonista do filme é Misako, uma rapariga que prepara os textos das audiodescrições destinadas a acompanharem a apresentação de filmes a deficientes visuais. No painel de teste utilizado para aferir o sucesso do trabalho antes de ser publicamente apresentado, conhece Nakamori, um conceituado fotógrafo acometido de uma doença, que o fará resvalar para a cegueira definitiva. É ele um dos mais veementes críticos do que ela propõe, verberando-lhe o excesso de palavras com que pretende detalhar as paisagens ou as emoções dos personagens.  Sugere, em suma, o quanta violência pressupõe o ato de nomear, descrever ou verbalizar as imagens, logo desprovidas de quanto contém de mistério ou de apelo ao imaginário.
Para explorar a dificuldade de traduzir imagens em palavras, Naomi Kawase recorre a um estilo nervoso, feito de planos curtos, quase sempre em cima dos corpos ou rostos dos atores, caçando-lhes o mínimo gesto com zooms e reenquadramentos acelerados.
O interesse das questões teóricas levantadas - sobretudo nas cenas passadas no painel com a meia dúzia de espectadores interventivos - não exclui que Kawase prolongue exageradamente o filme mediante a inserção do relacionamento de Misako com a mãe que, em si, nada adianta para o fio condutor da história nele contada.
É consensual a tese segundo a qual a realizadora já viveu momentos criativos mais interessantes...

sábado, agosto 01, 2020

(DIM) A nova geração das centrais nucleares


Há um par de dias, quando quis pôr em causa a opção do governo de António Costa pelo Hidrogénio Verde, a SIC foi buscar ao caixote do lixo a que estava remetido um antigo secretário de Estado do anedótico governo de Santana Lopes. Clemente Sampaio Nunes é um dos mais notórios defensores da energia nuclear e aparece a defendê-la sempre que lhe dão palanque para dizer aquilo para que é pago pelo lobby  em causa. O que se lhe ouviu no jornal da estação de Balsemão nada teve de novo: uma diatribe populista contra o governo, acenando com argumentos estafados, mas que julga convincentes para os «contribuintes» - termo usado e abusado pelas direitas - mais ignorantes.
Vale a pena olhar para os interesses defendidos por esse figurão e aprofundar as consequências do que poderia acontecer acaso ele tivesse conseguido ficar no governo mais do que os meses que Jorge Sampaio consentiu ao mais ridículo dos primeiros-ministros do pós-abril de 74.
O documentário de Mika Taarila e Juka Ferola, cujo link aqui se anexa, aborda a construção da terceira central nuclear na ilha de Oikiluoto, na Finlãndia onde já existem outras duas. Apesar de saberem dos riscos de um acidente, replicando na região o sucedido em Chernobyl ou Fukushima, a população aceita-os por ter como contrapartida o pleno emprego. Há quem hipoteque a vida em troca do ordenado recebido mês a mês.
Porém, os problemas agravaram-se desde 2004, altura da decisão quanto à construção, cujo término tem sido sucessivamente adiado devido aos atrasos logísticos, aos custos exponencialmente agravados e à dificuldade em decidir o sítio menos mau para a implantar.
Por muito que o lobby pró-nuclear continue muito ativo a opção por essa fonte de energia vai deparando com crescentes dificuldades. Não só ambientais, mas também políticas e económicas. Mas os seus lobistas continuam a ter o descaramento de aparecerem, quanto mais não seja para quererem convencer as populações das desvantagens das alternativas consensualmente aceites como as mais adequadas para responderem aos desafios das alterações climáticas.