domingo, julho 19, 2026

A Calma que Esconde o Fogo

 


As estampas japonesas sempre pareceram exercícios de serenidade perante o inevitável, não por celebrarem a catástrofe, mas por a integrarem na paisagem reconhecendo que a terra tem o próprio ritmo, por vezes violento, sem se deixar domesticar.  É essa aceitação que distingue a cultura japonesa, consciência antiga de concomitância entre a beleza e a ameaça sem que uma anule a outra.

Um pequeno filme lançado pelo município de Tóquio, três minutos de simulação que mostram o Monte Fuji a despertar, não como figura poética, mas como força geológica capaz de redesenhar a cidade num instante, surpreende-me por, das vezes em que ali estive, sempre ter olhado para aquele cone perfeito como presença tranquila, quase decorativa, sem imaginar um magma inquieto, ainda vivo, capaz de romper a superfície com violência.

O que mais impressiona, porém, não é a possibilidade da erupção, mas a diferença de leitura entre quem produz o filme e quem o comenta à distância, porque enquanto a imprensa internacional reage com alarmismo, como se cada imagem fosse prenúncio de desastre iminente, o município de Tóquio apresenta o vídeo como gesto de prevenção, exercício de cidadania, tentativa de preparar os habitantes para o que pode acontecer sem transformar essa possibilidade em pânico.

Há aqui uma ética da atenção que contrasta com o nosso hábito de dramatizar tudo, como se a realidade só ganhasse importância quando amplificada. Talvez seja por isso que o filme parece exemplar, não pela tecnologia usada, mas pela sobriedade com que trata o risco, lembrando que a preparação não precisa de medo, apenas de lucidez.

O Monte Fuji, visto de longe, sempre foi símbolo de estabilidade, mas ela está na capacidade de olhá-lo sabendo que pode mudar, e ainda assim continuar a viver sem ceder ao alarmismo que tanto seduz quem prefere o espetáculo à compreensão.

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