As
estampas japonesas sempre pareceram exercícios de serenidade perante o
inevitável, não por celebrarem a catástrofe, mas por a integrarem na paisagem reconhecendo
que a terra tem o próprio ritmo, por vezes violento, sem se deixar domesticar. É essa aceitação que distingue a cultura
japonesa, consciência antiga de concomitância entre a beleza e a ameaça sem que
uma anule a outra.
Um
pequeno filme lançado pelo município de Tóquio, três minutos de simulação que
mostram o Monte Fuji a despertar, não como figura poética, mas como força
geológica capaz de redesenhar a cidade num instante, surpreende-me por, das
vezes em que ali estive, sempre ter olhado para aquele cone perfeito como
presença tranquila, quase decorativa, sem imaginar um magma inquieto, ainda
vivo, capaz de romper a superfície com violência.
O que
mais impressiona, porém, não é a possibilidade da erupção, mas a diferença de
leitura entre quem produz o filme e quem o comenta à distância, porque enquanto
a imprensa internacional reage com alarmismo, como se cada imagem fosse
prenúncio de desastre iminente, o município de Tóquio apresenta o vídeo como
gesto de prevenção, exercício de cidadania, tentativa de preparar os habitantes
para o que pode acontecer sem transformar essa possibilidade em pânico.
Há aqui
uma ética da atenção que contrasta com o nosso hábito de dramatizar tudo, como
se a realidade só ganhasse importância quando amplificada. Talvez seja por isso
que o filme parece exemplar, não pela tecnologia usada, mas pela sobriedade com
que trata o risco, lembrando que a preparação não precisa de medo, apenas de
lucidez.
O Monte
Fuji, visto de longe, sempre foi símbolo de estabilidade, mas ela está na
capacidade de olhá-lo sabendo que pode mudar, e ainda assim continuar a viver
sem ceder ao alarmismo que tanto seduz quem prefere o espetáculo à compreensão.

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