sábado, julho 25, 2026

O Palco que se Apaga Devagar

 


Há sinais que anunciam o fim antes de ele chegar, e talvez seja isso que agora paira sobre o Festival Internacional de Teatro de Almada, como já aconteceu com os Dias da Música no CCB, que desapareceram sem grande alarme público, embora fosse um dos raros momentos em que a Grande Lisboa respirava cultura com alegria, e a música fosse capaz de suspender por instantes a rotina e devolver alguma ordem interior.

Ouço Rodrigo Francisco explicar que os preços dos hotéis, das viagens, dos transportes, dos equipamentos, dos cenários, subiram de tal forma que o festival só sobreviverá com aumento significativo do subsídio, e percebo como esta frase, tão simples, contém a radiografia de um país onde a cultura é sempre a primeira vítima dos cortes, como se fosse luxo dispensável e não parte essencial da saúde pública, que não se mede apenas em corpos, mas também em imaginação.

Vivemos num tempo em que tudo encarece menos o discurso político sobre a importância da cultura, sempre tão generoso, tão inflamado, tão pronto a proclamar que sem arte não há democracia, mas incapaz de transformar essa retórica em orçamento, como se a cultura fosse entidade abstrata que se alimenta de declarações e não de condições materiais para existir.

Vejo o festival ameaçado pela mesma lógica que levou outros eventos ao desaparecimento: a soma de custos que ninguém quer assumir, a falta de visão que impede pensar a longo prazo, a ideia de que o público se adapta a qualquer perda, como se a ausência não deixasse marcas, como se a cidade não ficasse mais pobre quando um palco se apaga.

Termino com a sensação de que estes tempos difíceis para a cultura não são conjuntura, são sintoma, e que o verdadeiro risco não é perder um festival, mas habituar‑nos a perdê‑los sem protesto, como quem aceita que o silêncio é inevitável.

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