sexta-feira, julho 03, 2026

O Final Patético do Poder Absoluto

 


O cinema tem uma predileção antiga pelo espetáculo da queda dos tiranos — Hitler paranoico no bunker, Luís XIV apodrecido pela gangrena, Salazar demente a ser enganado pelas criadas e a ter medo das galinhas. Não é sadismo: é a necessidade humana de confirmar que o poder absoluto não poupa os seus detentores do final que os espera, tão patético quanto o de qualquer outro mortal, e por vezes mais.

Pai Nosso, de José Filipe Costa, espelha esse paradoxo com uma eficácia que não precisa de forçar nada — a realidade histórica já era suficientemente cruel. O homem que manteve Portugal na obscuridade durante décadas acabou os dias convencido de que ainda governava, rodeado de criadas que lhe alimentavam a ilusão por medo ou por hábito, incapaz de distinguir o poder real da sua sombra.

Tudo nele inspira comiseração — esse sentimento frio que reconhece o sofrimento sem lhe conceder a dignidade da compaixão. E há qualquer coisa de particularmente amargo em constatar que não teve consciência de quanto o país celebraria em festa o fim do seu projeto político. Morreu sem saber. Talvez seja esse o único privilégio que o destino lhe reservou.

Perante este retrato resta a pergunta que o filme implicitamente coloca e que a história portuguesa não respondeu ainda satisfatoriamente: como pode haver quem suspire por três Salazares? A resposta diz mais sobre quem suspira do que sobre o homem que apodreceu entre as galinhas.

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