O cinema
tem uma predileção antiga pelo espetáculo da queda dos tiranos — Hitler
paranoico no bunker, Luís XIV apodrecido pela gangrena, Salazar demente a ser
enganado pelas criadas e a ter medo das galinhas. Não é sadismo: é a
necessidade humana de confirmar que o poder absoluto não poupa os seus
detentores do final que os espera, tão patético quanto o de qualquer outro
mortal, e por vezes mais.
Pai
Nosso, de
José Filipe Costa, espelha esse paradoxo com uma eficácia que não precisa de
forçar nada — a realidade histórica já era suficientemente cruel. O homem que
manteve Portugal na obscuridade durante décadas acabou os dias convencido de
que ainda governava, rodeado de criadas que lhe alimentavam a ilusão por medo
ou por hábito, incapaz de distinguir o poder real da sua sombra.
Tudo nele
inspira comiseração — esse sentimento frio que reconhece o sofrimento sem lhe
conceder a dignidade da compaixão. E há qualquer coisa de particularmente
amargo em constatar que não teve consciência de quanto o país celebraria em
festa o fim do seu projeto político. Morreu sem saber. Talvez seja esse o único
privilégio que o destino lhe reservou.
Perante
este retrato resta a pergunta que o filme implicitamente coloca e que a
história portuguesa não respondeu ainda satisfatoriamente: como pode haver quem
suspire por três Salazares? A resposta diz mais sobre quem suspira do que sobre
o homem que apodreceu entre as galinhas.

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