A lenda
de Obélix a destruir o nariz da esfinge é daquelas invenções que a cultura
popular adota com entusiasmo, talvez porque a ficção oferece explicações mais
cómodas do que a história, mas a verdade é menos divertida e mais reveladora:
foi um pregador muçulmano, tomado por zelo fanático, quem decidiu atacar o
monumento, convencido de que os aldeões das redondezas lhe prestavam culto ao
deixarem legumes na base da estátua, gesto que ele interpretou como idolatria
intolerável.
Começou
pelo nariz, porque acreditava que era por ali que a esfinge respirava, como se
o rosto de pedra guardasse ainda algum sopro de vida, e preparava‑se para
destruir as orelhas quando o céu mudou de súbito, anunciando tempestade,
fenómeno que a tradição atribuía à própria esfinge, capaz de convocar ventos e
castigos. Religioso, mas também supersticioso, o pregador recuou, fugindo antes
que o céu lhe confirmasse o erro.
A
história não termina aí, porque a maldição que ele temeu acabou por encontrá‑lo
anos depois, já sob a dinastia mameluca, quando o poder político percebeu que
os monumentos seriam fulcro de interesse turístico e, portanto, fonte de
prestígio e riqueza. Identificado como autor do ataque, foi preso e executado,
não por razões teológicas, mas por crime contra o património, como se a pedra
tivesse finalmente reclamado justiça.
A relação
com os símbolos é sempre ambígua: ora se destrói por medo, ora se protege por
interesse, ora se inventam lendas para suavizar o que a história não consegue
esconder. E talvez seja essa oscilação que torna a esfinge tão persistente —
não como ruína, mas enquanto espelho das obsessões humanas.

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