sexta-feira, julho 31, 2026

O Nariz Que a Lenda Inventou

 


A lenda de Obélix a destruir o nariz da esfinge é daquelas invenções que a cultura popular adota com entusiasmo, talvez porque a ficção oferece explicações mais cómodas do que a história, mas a verdade é menos divertida e mais reveladora: foi um pregador muçulmano, tomado por zelo fanático, quem decidiu atacar o monumento, convencido de que os aldeões das redondezas lhe prestavam culto ao deixarem legumes na base da estátua, gesto que ele interpretou como idolatria intolerável.

Começou pelo nariz, porque acreditava que era por ali que a esfinge respirava, como se o rosto de pedra guardasse ainda algum sopro de vida, e preparava‑se para destruir as orelhas quando o céu mudou de súbito, anunciando tempestade, fenómeno que a tradição atribuía à própria esfinge, capaz de convocar ventos e castigos. Religioso, mas também supersticioso, o pregador recuou, fugindo antes que o céu lhe confirmasse o erro.

A história não termina aí, porque a maldição que ele temeu acabou por encontrá‑lo anos depois, já sob a dinastia mameluca, quando o poder político percebeu que os monumentos seriam fulcro de interesse turístico e, portanto, fonte de prestígio e riqueza. Identificado como autor do ataque, foi preso e executado, não por razões teológicas, mas por crime contra o património, como se a pedra tivesse finalmente reclamado justiça.

A relação com os símbolos é sempre ambígua: ora se destrói por medo, ora se protege por interesse, ora se inventam lendas para suavizar o que a história não consegue esconder. E talvez seja essa oscilação que torna a esfinge tão persistente — não como ruína, mas enquanto espelho das obsessões humanas. 

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