segunda-feira, julho 20, 2026

A Árvore que Aguentou o Medo

 


A história de Fogo do Vento regressa à infância como quem abre uma porta que nunca se fechou totalmente, porque a imagem dos trabalhadores a subir às árvores para escapar ao touro bravo não é apenas cena de filme, é memória de um território onde o risco fazia parte da paisagem e onde cada curva da azinhaga podia esconder a surpresa que obrigava a pensar depressa, agir depressa, sobreviver depressa.

Vejo o capataz do filme a receber as marradas furiosas do animal enquanto os outros observam de cima, protegidos pela altura, e reconheço nesse gesto coletivo uma espécie de ritual antigo, momento em que o medo se transforma em narrativa, em catarse, em troca de histórias que ligam o presente ao passado, como se cada investida do touro convocasse todas as outras que já tinham acontecido.

Comigo foi diferente, porque não havia grupo, apenas a minha tia Margarida e eu, dois corpos apanhados de surpresa ao dobrarmos a curva entre Montenhoso e Costas de Cão, e ainda hoje me impressiona a rapidez com que ela percebeu o perigo, empurrando‑me para a figueira mais próxima, subindo logo atrás, sem hesitação, como se a árvore fosse extensão natural da nossa defesa, abrigo improvisado contra a fúria que vinha pela azinhaga.

Lá em baixo, frustrado por não nos alcançar, o touro investiu contra o tronco com violência que a figueira suportou graças à sua firmeza, e passámos ali parte da manhã, pendurados nos ramos, atentos ao silêncio que sucedeu às marradas, tentando adivinhar se o animal ainda rondava, se tinha desistido, se nos esperava fora do nosso campo de visão.

Quando finalmente descemos e alcançámos a aldeia, levávamos a história pronta para ser contada, mas os ouvintes tinham as suas próprias versões, cada um com o seu medo, cada um com a sua fuga, cada um com a sua árvore, e percebi então que a aventura não era exceção, era parte de uma memória comum, território onde o perigo circulava como personagem habitual e onde cada relato servia para aliviar o susto e reforçar a pertença.

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