A
história de Fogo do Vento regressa à infância como quem abre uma porta
que nunca se fechou totalmente, porque a imagem dos trabalhadores a subir às
árvores para escapar ao touro bravo não é apenas cena de filme, é memória de um
território onde o risco fazia parte da paisagem e onde cada curva da azinhaga
podia esconder a surpresa que obrigava a pensar depressa, agir depressa,
sobreviver depressa.
Vejo o
capataz do filme a receber as marradas furiosas do animal enquanto os outros
observam de cima, protegidos pela altura, e reconheço nesse gesto coletivo uma
espécie de ritual antigo, momento em que o medo se transforma em narrativa, em
catarse, em troca de histórias que ligam o presente ao passado, como se cada
investida do touro convocasse todas as outras que já tinham acontecido.
Comigo
foi diferente, porque não havia grupo, apenas a minha tia Margarida e eu, dois
corpos apanhados de surpresa ao dobrarmos a curva entre Montenhoso e Costas de
Cão, e ainda hoje me impressiona a rapidez com que ela percebeu o perigo,
empurrando‑me para a figueira mais próxima, subindo logo atrás, sem hesitação,
como se a árvore fosse extensão natural da nossa defesa, abrigo improvisado
contra a fúria que vinha pela azinhaga.
Lá em
baixo, frustrado por não nos alcançar, o touro investiu contra o tronco com
violência que a figueira suportou graças à sua firmeza, e passámos ali parte da
manhã, pendurados nos ramos, atentos ao silêncio que sucedeu às marradas,
tentando adivinhar se o animal ainda rondava, se tinha desistido, se nos
esperava fora do nosso campo de visão.
Quando
finalmente descemos e alcançámos a aldeia, levávamos a história pronta para ser
contada, mas os ouvintes tinham as suas próprias versões, cada um com o seu
medo, cada um com a sua fuga, cada um com a sua árvore, e percebi então que a
aventura não era exceção, era parte de uma memória comum, território onde o
perigo circulava como personagem habitual e onde cada relato servia para
aliviar o susto e reforçar a pertença.

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