Como
dizem os italianos: se non è vero, è ben trovato. A história do
lavagante que vai alimentando o preguiçoso safio na sua toca, engordando‑o até ficar
ali encurralado e ser altura dele avançar, é uma dessas metáforas perfeitas.
José Cardoso Pires usou‑a com mestria. E António‑Pedro Vasconcelos queria fazer
dela o seu último filme —que já não teve tempo de rodar, incumbindo-se Mário
Barroso do projeto...
Tanto
tempo passou desde que o escritor congeminou essa imagem, e continua a fazer
pleno sentido. Ou não estivéssemos novamente ameaçados por uma ideologia que
julgávamos prescrita para nunca mais. O lavagante continua paciente e o safio distraído.
E o desfecho, se nada mudar, repete‑se.
Por estes
dias, o genocídio dos gastrópodes — acompanhado de muitos litros de cerveja —
prosseguiu alegremente à conta do “patrioteirismo” estúpido que se alimentou da
seleção nacional em terras americanas. Antes disso, era a beatice da
peregrinação anual a Fátima. O futebol e a Cova da Iria funcionam como
anestésicos sociais. Amolecem as mentes. Desviam a atenção. Criam a ilusão de
pertença enquanto o essencial se perde.
E, assim
distraídas, as pessoas permitem os avanços dos vampiros cantados por Zeca
Afonso. Eles não desapareceram. Apenas mudaram de roupa. A metáfora do
lavagante e do safio continua a ser aviso, diagnóstico, retrato de um país que,
demasiadas vezes, prefere o ritual à vigilância.
Pensar no
que esta metáfora diz é reconhecer que o essencial não mudou. O lavagante
continua a existir. O safio também. E o mecanismo que os une permanece intacto:
um alimenta, o outro adormece.
A força
da metáfora está na simplicidade. O predador não ataca de imediato. Cria
conforto. Oferece alimento. Garante rotina. E, quando o safio já não distingue
cuidado de captura, fecha a toca.
É assim
que o poder autoritário avança. Não com violência inicial, mas com sedução. Com
distrações. Com rituais que ocupam o espaço mental. Com entusiasmos que parecem
inofensivos. Com pertenças que dispensam pensamento.
O safio representa
a sociedade quando abdica da vigilância, confunde estabilidade com segurança, aceita
que o essencial seja decidido por outros e se deixa embalar por festividades,
por patriotismos de ocasião, por devoções que substituem a reflexão.
A
metáfora diz que o perigo não se anuncia como tal. Chega mascarado de
normalidade. De festa. De tradição. De identidade. E, quando damos por isso, já
estamos encurralados na toca que julgávamos nossa.
Por isso
vale a pena pensar no que esta metáfora diz como quem observa um aviso antigo
que continua a funcionar. Não para viver em sobressalto, mas para evitar a
anestesia. Porque, se não reconhecermos o lavagante, acabamos ser sempre o
safio.

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