terça-feira, julho 14, 2026

O Lavagante e o Safio

 


Como dizem os italianos: se non è vero, è ben trovato. A história do lavagante que vai alimentando o preguiçoso safio na sua toca, engordando‑o até ficar ali encurralado e ser altura dele avançar, é uma dessas metáforas perfeitas. José Cardoso Pires usou‑a com mestria. E António‑Pedro Vasconcelos queria fazer dela o seu último filme —que já não teve tempo de rodar, incumbindo-se Mário Barroso do projeto...

Tanto tempo passou desde que o escritor congeminou essa imagem, e continua a fazer pleno sentido. Ou não estivéssemos novamente ameaçados por uma ideologia que julgávamos prescrita para nunca mais. O lavagante continua paciente e o safio distraído. E o desfecho, se nada mudar, repete‑se.

Por estes dias, o genocídio dos gastrópodes — acompanhado de muitos litros de cerveja — prosseguiu alegremente à conta do “patrioteirismo” estúpido que se alimentou da seleção nacional em terras americanas. Antes disso, era a beatice da peregrinação anual a Fátima. O futebol e a Cova da Iria funcionam como anestésicos sociais. Amolecem as mentes. Desviam a atenção. Criam a ilusão de pertença enquanto o essencial se perde.

E, assim distraídas, as pessoas permitem os avanços dos vampiros cantados por Zeca Afonso. Eles não desapareceram. Apenas mudaram de roupa. A metáfora do lavagante e do safio continua a ser aviso, diagnóstico, retrato de um país que, demasiadas vezes, prefere o ritual à vigilância.

Pensar no que esta metáfora diz é reconhecer que o essencial não mudou. O lavagante continua a existir. O safio também. E o mecanismo que os une permanece intacto: um alimenta, o outro adormece.

A força da metáfora está na simplicidade. O predador não ataca de imediato. Cria conforto. Oferece alimento. Garante rotina. E, quando o safio já não distingue cuidado de captura, fecha a toca.

É assim que o poder autoritário avança. Não com violência inicial, mas com sedução. Com distrações. Com rituais que ocupam o espaço mental. Com entusiasmos que parecem inofensivos. Com pertenças que dispensam pensamento.

O safio representa a sociedade quando abdica da vigilância, confunde estabilidade com segurança, aceita que o essencial seja decidido por outros e se deixa embalar por festividades, por patriotismos de ocasião, por devoções que substituem a reflexão.

A metáfora diz que o perigo não se anuncia como tal. Chega mascarado de normalidade. De festa. De tradição. De identidade. E, quando damos por isso, já estamos encurralados na toca que julgávamos nossa.

Por isso vale a pena pensar no que esta metáfora diz como quem observa um aviso antigo que continua a funcionar. Não para viver em sobressalto, mas para evitar a anestesia. Porque, se não reconhecermos o lavagante, acabamos ser sempre o safio.

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