Sendo ateu e marxista, aprecio as histórias de Lovecraft, passadas num universo saturado de presságios, ruínas, criaturas que não pedem fé mas exigem imaginação. Porque ele criou um mundo onde o sobrenatural não é religioso, mas geológico, cósmico, quase científico, como se a ameaça viesse não de deuses, mas da própria matéria do universo, indiferente ao humano.
Lovecraft
era conservador e racista, e não há como suavizar isso, mas a ficção operava
num plano que escapava à moralidade do autor, porque não dependia da crença, mas
da constatação de um medo sem conotação com um qualquer castigo: o mundo era
maior do que nós, mais antigo, estranho e indiferente.
Para quem
cresceu politicamente na crítica ao idealismo, há algo de curioso nesta
literatura que recusa transcendência e, ao mesmo tempo, a substitui por forças
que não pedem devoção, apenas reconhecimento da nossa insignificância.
Talvez
seja isso que atrai em Lovecraft: não oferece redenção, sentido ou conforto. A ficção
é materialista, porque tudo o que assusta é físico — mares, rochas, fungos,
criaturas que emergem de camadas profundas do tempo — e essa fisicalidade,
mesmo envolta em fantasia, aproxima‑se mais da ciência do que da religião. Não
há providência, moral, ou destino: apenas a vastidão do cosmos e a fragilidade
humana.
E depois
há a capacidade de sugerir mais do que mostrar, de construir terror pela
subtração, pela sombra, pela descrição incompleta, técnica, próxima da ética
narrativa que procuro: observar antes de julgar, insinuar antes de declarar,
deixar que o leitor habite o intervalo entre o que vê e o que imagina.
Lovecraft
deu azo a muita ambiguidade nas suas contradições, mas a obra, separada do
autor, oferece território onde o ateísmo não é obstáculo e o marxismo não é
desconforto: apenas leitura de um mundo onde o humano é pequeno e, ainda assim,
persiste.

Sem comentários:
Enviar um comentário