sexta-feira, julho 31, 2026

A Matéria Escura da Imaginação

 


Sendo ateu e marxista, aprecio as histórias de Lovecraft, passadas num universo saturado de presságios, ruínas, criaturas que não pedem fé mas exigem imaginação. Porque ele criou um mundo onde o sobrenatural não é religioso, mas geológico, cósmico, quase científico, como se a ameaça viesse não de deuses, mas da própria matéria do universo, indiferente ao humano.

Lovecraft era conservador e racista, e não há como suavizar isso, mas a ficção operava num plano que escapava à moralidade do autor, porque não dependia da crença, mas da constatação de um medo sem conotação com um qualquer castigo: o mundo era maior do que nós, mais antigo, estranho e indiferente.

Para quem cresceu politicamente na crítica ao idealismo, há algo de curioso nesta literatura que recusa transcendência e, ao mesmo tempo, a substitui por forças que não pedem devoção, apenas reconhecimento da nossa insignificância.

Talvez seja isso que atrai em Lovecraft: não oferece redenção, sentido ou conforto. A ficção é materialista, porque tudo o que assusta é físico — mares, rochas, fungos, criaturas que emergem de camadas profundas do tempo — e essa fisicalidade, mesmo envolta em fantasia, aproxima‑se mais da ciência do que da religião. Não há providência, moral, ou destino: apenas a vastidão do cosmos e a fragilidade humana.

E depois há a capacidade de sugerir mais do que mostrar, de construir terror pela subtração, pela sombra, pela descrição incompleta, técnica, próxima da ética narrativa que procuro: observar antes de julgar, insinuar antes de declarar, deixar que o leitor habite o intervalo entre o que vê e o que imagina.

Lovecraft deu azo a muita ambiguidade nas suas contradições, mas a obra, separada do autor, oferece território onde o ateísmo não é obstáculo e o marxismo não é desconforto: apenas leitura de um mundo onde o humano é pequeno e, ainda assim, persiste.

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