Ouço
Alexandre Delgado a explicar a Nona de Shostakovich com a insistência em
sublinhar a dissociação do compositor em relação ao estalinismo, como se cada
análise tivesse de reafirmar a tensão entre o artista e o regime, e noto como
essa preocupação, embora legítima, acaba por criar uma espécie de filtro
ideológico que condiciona a escuta, como se a música precisasse de ser
protegida da sombra política que a rodeou.
Percebo o
saber do musicólogo, a precisão com que lê a partitura, a atenção aos detalhes
que revelam ironia, contenção, sarcasmo, mas também percebo como essa leitura
parece prisioneira de um preconceito antigo: a ideia de que Shostakovich só
pode ser compreendido se o imaginarmos em permanente confronto com Estaline,
como se o facto de ser celebrado pelo regime anulasse a complexidade da sua
obra ou a ambiguidade da sua posição.
Por mim,
gosto de toda a música de Shostakovich, da grandeza da Sétima à secura
calculada da Nona, e não vejo contradição em reconhecer que Estaline o prezava,
mesmo quando rejeitava a Lady Macbeth ou desconfiava das sinfonias que
se seguiram.
Há
ditadores que não leem, que não escutam, que não compreendem o valor simbólico
da arte; Estaline, com a sua biblioteca vasta, lia, e essa leitura, embora não
o redima, ajuda a explicar a relação ambivalente que manteve com o compositor.
É isso
que me interessa: a coexistência de admiração e censura, de poder e
fragilidade, de criação e vigilância, porque essa tensão não diminui
Shostakovich, antes ilumina a coragem silenciosa com que escreveu, sabendo que
cada nota podia ser interpretada como gesto político, mas recusando transformar
a música em manifesto.
Termino
com a sensação de que a obra resiste a todas as leituras ideológicas, e que o
verdadeiro desafio não é libertá‑la de Estaline, mas libertar‑nos da
necessidade de explicar tudo através dele.

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