domingo, julho 26, 2026

A Música Sob a Sombra do Poder

 


Ouço Alexandre Delgado a explicar a Nona de Shostakovich com a insistência em sublinhar a dissociação do compositor em relação ao estalinismo, como se cada análise tivesse de reafirmar a tensão entre o artista e o regime, e noto como essa preocupação, embora legítima, acaba por criar uma espécie de filtro ideológico que condiciona a escuta, como se a música precisasse de ser protegida da sombra política que a rodeou.

Percebo o saber do musicólogo, a precisão com que lê a partitura, a atenção aos detalhes que revelam ironia, contenção, sarcasmo, mas também percebo como essa leitura parece prisioneira de um preconceito antigo: a ideia de que Shostakovich só pode ser compreendido se o imaginarmos em permanente confronto com Estaline, como se o facto de ser celebrado pelo regime anulasse a complexidade da sua obra ou a ambiguidade da sua posição.

Por mim, gosto de toda a música de Shostakovich, da grandeza da Sétima à secura calculada da Nona, e não vejo contradição em reconhecer que Estaline o prezava, mesmo quando rejeitava a Lady Macbeth ou desconfiava das sinfonias que se seguiram.

Há ditadores que não leem, que não escutam, que não compreendem o valor simbólico da arte; Estaline, com a sua biblioteca vasta, lia, e essa leitura, embora não o redima, ajuda a explicar a relação ambivalente que manteve com o compositor.

É isso que me interessa: a coexistência de admiração e censura, de poder e fragilidade, de criação e vigilância, porque essa tensão não diminui Shostakovich, antes ilumina a coragem silenciosa com que escreveu, sabendo que cada nota podia ser interpretada como gesto político, mas recusando transformar a música em manifesto.

Termino com a sensação de que a obra resiste a todas as leituras ideológicas, e que o verdadeiro desafio não é libertá‑la de Estaline, mas libertar‑nos da necessidade de explicar tudo através dele. 

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