domingo, julho 19, 2026

O Incómodo que Persiste


Sete anos depois continuo a não apreciar Parasitas na dimensão que o transformou em fenómeno mediático e potenciou os muitos prémios atribuídos. O desconforto que sinto não é com a ambição do projeto mas com as escolhas que o realizam.

A família de fura-vidas que se instala em casa dos ricos e descobre outra já lá escondida clandestinamente é uma premissa com potencial — mas o que Bong Joon Ho faz com ela incomoda-me pela ambiguidade moral com que traduz as relações de classe. Os ricos são ingénuos até à caricatura, os pobres são sem escrúpulos até à animalidade, e esta simetria é precisamente o problema: porque a realidade social não é simétrica. A violência dos que detêm o poder no uso e usufruto dele raramente aparece assim — normalmente é estrutural, invisível, exercida através das instituições e das regras que fabricaram para si próprios. Reduzi-la à ingenuidade é uma forma de a absolver.

O incómodo é semelhante ao sentido há muito com Ettore Scola, esse suposto realizador de esquerda que quis mostrar os de baixo como feios, porcos e maus — título que era já um programa. Há um certo cinema que se proclama crítico e acaba por confirmar os preconceitos que deveria desmontar, servindo ao público a ilusão de uma reflexão social sem lhe exigir nenhuma.

Um filme verdadeiramente incómodo sobre classes não faria rir a plateia tão confortavelmente.


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