Sete anos
depois continuo a não apreciar Parasitas na dimensão que o transformou
em fenómeno mediático e potenciou os muitos prémios atribuídos. O desconforto
que sinto não é com a ambição do projeto mas com as escolhas que o realizam.
A família
de fura-vidas que se instala em casa dos ricos e descobre outra já lá escondida
clandestinamente é uma premissa com potencial — mas o que Bong Joon Ho faz com
ela incomoda-me pela ambiguidade moral com que traduz as relações de classe. Os
ricos são ingénuos até à caricatura, os pobres são sem escrúpulos até à
animalidade, e esta simetria é precisamente o problema: porque a realidade
social não é simétrica. A violência dos que detêm o poder no uso e usufruto
dele raramente aparece assim — normalmente é estrutural, invisível, exercida
através das instituições e das regras que fabricaram para si próprios.
Reduzi-la à ingenuidade é uma forma de a absolver.
O
incómodo é semelhante ao sentido há muito com Ettore Scola, esse suposto
realizador de esquerda que quis mostrar os de baixo como feios, porcos e maus —
título que era já um programa. Há um certo cinema que se proclama crítico e
acaba por confirmar os preconceitos que deveria desmontar, servindo ao público
a ilusão de uma reflexão social sem lhe exigir nenhuma.
Um filme verdadeiramente incómodo sobre classes não faria rir a plateia tão confortavelmente.

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