No
podcast do Público sobre cinema, a propósito do ciclo que a Cinemateca
prepara sobre Truffaut, aventa-se a contraposição inevitável com Godard.
Reconhece-se a este a intemporalidade da obra, sem se querer por isso
subestimar a do antigo parceiro dos Cahiers du Cinéma, mesmo sabendo-o
por demais datado em comparação.
Confesso
não repetir aqui a lógica de exclusão que assumo noutros campos — a que me leva
a depreciar Lobo Antunes, Camus ou Vargas Llosa em favor de Saramago, Sartre ou
García Márquez, respetivamente. Com Godard e Truffaut, a régua não funciona da
mesma maneira.
Gosto
muito, mesmo muito, de Godard. Le Mépris e Alphaville merecem
lugar no meu top 20 pessoal destes sessenta e muitos anos de vida a ver filmes.
Mas alguns Truffaut — Jules et Jim, L'Enfant Sauvage, La Nuit
Américaine — encaixam facilmente no top 50, e continuo a gostar deles
sempre que os revisito, o que não acontece com tudo o que envelhece.
Muito
diferentes enquanto cineastas, Godard e Truffaut são-me complementares e não
concorrentes. Gosto de ser desafiado pela inteligência do primeiro — esse
cinema que pensa sobre si próprio enquanto se filma. Mas deixo-me sensibilizar
pelo lado romanesco do segundo, que nunca teve vergonha de contar histórias com
o coração à vista.
Talvez
seja essa a diferença entre admirar e amar. Com Godard admiro. Com Truffaut, às
vezes, amo.

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