segunda-feira, julho 20, 2026

A Exceção à Regra da Exclusão

 


No podcast do Público sobre cinema, a propósito do ciclo que a Cinemateca prepara sobre Truffaut, aventa-se a contraposição inevitável com Godard. Reconhece-se a este a intemporalidade da obra, sem se querer por isso subestimar a do antigo parceiro dos Cahiers du Cinéma, mesmo sabendo-o por demais datado em comparação.

Confesso não repetir aqui a lógica de exclusão que assumo noutros campos — a que me leva a depreciar Lobo Antunes, Camus ou Vargas Llosa em favor de Saramago, Sartre ou García Márquez, respetivamente. Com Godard e Truffaut, a régua não funciona da mesma maneira.

Gosto muito, mesmo muito, de Godard. Le Mépris e Alphaville merecem lugar no meu top 20 pessoal destes sessenta e muitos anos de vida a ver filmes. Mas alguns Truffaut — Jules et Jim, L'Enfant Sauvage, La Nuit Américaine — encaixam facilmente no top 50, e continuo a gostar deles sempre que os revisito, o que não acontece com tudo o que envelhece.

Muito diferentes enquanto cineastas, Godard e Truffaut são-me complementares e não concorrentes. Gosto de ser desafiado pela inteligência do primeiro — esse cinema que pensa sobre si próprio enquanto se filma. Mas deixo-me sensibilizar pelo lado romanesco do segundo, que nunca teve vergonha de contar histórias com o coração à vista.

Talvez seja essa a diferença entre admirar e amar. Com Godard admiro. Com Truffaut, às vezes, amo.

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